02 junho 2016


MAPA DE NAVEGAÇÃO DESTE SITE:



Páginas recentemente alteradas: LEITURAS e VISITAS À CASA DO POETA. Foram começadas algumas páginas novas: DESENHOS e AVIÃO. A BIBLIOGRAFIA continua a crescer.

Os links para a obra regiana estão na coluna da esquerda:


LIVROS (onde aos poucos também vão sendo publicados resumos interpretativos das obras de ficção) TEXTOS DISPERSOSCORRESPONDÊNCIACARTAS AVULSAS (página apenas iniciada), ENTREVISTAS (apenas iniciada também), TEATRO - ESTREIAS,  CINEMA,  PREFÁCIOSANTOLOGIAS e ARTE, página dedicada à sua obra plástica, e ainda DEDICATÓRIAS E AUTÓGRAFOS.

Estas páginas acima, referentes à obra de Régio, são apresentadas em cronologia ascendente.

As páginas seguintes estão listadas em cronologia descendente, com os contributos mais recentes no início, tal como esta de 'Notícias'.

BIBLIOGRAFIAWEBGRAFIA (textos publicados originalmente na web), BIBLIOGRAFIA ESTRANGEIRATRADUÇÕESapenas iniciadas, pois o levantamento desta bibliografia é o mais extenso trabalho a ser cumprido pelo site.

No final fazemos as VISITAS À CASA DO POETA e assistimos a uma recolha de LEITURAS - interpretações artísticas da poesia regiana.

Ainda à esquerda: LIGAÇÕES EXTERNAS, GRUPO DA PRESENÇA, GERAÇÃO DA PRESENÇA, NEOPRESENCISTAS.

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Abaixo ver as notícias de atualidade com interesse para os estudos regianos:


18 abril 2016

Apresentação do livro 'José Régio: Correspondência com seu irmão Antonino', organizada por Filipe Delfim Santos

Casa Museu José Régio, 18 de abril de 2016, 18.00H
Com a presença de Filipe Delfim Santos e de Manuela Neves Pereira



O Livro

Devo começar por informar que, neste livro, presentifica-se a correspondência a Antonino do homem, José Maria dos Reis Pereira, e não do escritor, José Régio. Embora nela encontremos traços de estilo inequivocamente regianos (de escrita, de linguagem, de pensamento) pois que inequivocamente o homem serve ao escritor, não mesclemos o primeiro com o segundo. Esta correspondência deixa, assim, conjeturar o homem, José Maria dos Reis Pereira, numa relação, que pessoalmente considero muito íntima, privada: a fraternal, em todos os ângulos afetivos, emocionais e, neste caso, e principalmente, legais (lei/legado) que tal acarreta.

De facto, neste volume, temos acesso a uma correspondência persistente (note-se que estão aqui recolhidas 65 missivas que, desde a terceira carta aqui integrada, balizam temporalmente o começo em 1957 e o final em 1965), contrastando com a correspondência anterior, que se extraviou, e que se adivinha ter sido ocasional (de finais dos anos 20 a finais dos anos 50), da qual apenas aqui constam as duas primeiras epístolas apresentadas (uma de 1929, outra de 1949).

Aludindo sucintamente à história de vida de Antonino, este tinha emigrado para o Brasil ainda muito jovem. Lá, e conforme F. Delfim Santos refere nesta obra, acabara «confinado à mediania de uma existência de empregado de escritório, probo e bem-comportado» (p. 16). Com efeito, Antonino nunca regressaria em vida a Portugal, sendo que o próprio José Maria dos Reis Pereira, naquela que era a sua consciência de família e de união da mesma, consegue que, anos depois do seu falecimento, os seus restos mortais sejam trazidos para Portugal e integrem o jazido da família em Vila do Conde.

A corrente missiva que aqui se foca, entre José Maria dos Reis Pereira (o mais velho de seus irmãos Júlio, Antonino, Ana, Apolinário e João Maria, sendo que antes dele ainda nascera uma irmã que falecera em criança) e Antonino, trata predominantemente de um aspeto que preenche os contornos de uma relação fraternal, numa vertente legal: o das partilhas da herança da família, legada por falecimento de seu pai. De facto, esta correspondência sobressai no tratamento deste tema, parecendo anunciar uma certa frieza ou materialismo por parte dos irmãos; todavia há que contemplar o tratamento de etapas burocráticas generosas (em quantidade e qualidade) que os processos de herança e partilhas acarretam, associando-se estes à distância geográfica que apartava (e muito) os dois irmãos e que muito acabava por intrincar (aliás, percebe-se pela correspondência que o mesmo se passara com o seu outro irmão, Apolinário, pois que este vivia então em Angola). A acrescentar, o acervo de correspondência nesta temática também se justifica na descrição minuciosa e transparente das partilhas, de modo a manter uma relação fraternal de confiança e cumplicidade. Com efeito, o próprio José Maria dos Reis Pereira refere na carta 48: «Felizmente, tudo tem vindo correndo bem, sem essas questões que tanto me chocam nas famílias que se zangam por causa de interesses em luta» (pp. 215-216).

Ainda, nesta correspondência, além da exploração deste tema, outros são abordados. Assim, esparsa e pontualmente são refletidos aspetos da vida do escritor (as suas obras, algumas das suas personagens e narrativas, a sua intelectualidade, os seus prémios, a sua notoriedade: de facto, Antonino nunca deixa de manifestar grande admiração e orgulho fraternal pelo percurso intelectual do seu irmão); a vida social, económica e parcamente intelectual (e até íntima…) de Antonino no Brasil; o relato de pequenas vivências em família, por parte de José, no Natal, principalmente. Outro tema, aquele que mais se destaca, a seguir ao que trespassa maioritariamente toda a correspondência, é o da pesca. Antonino fizera dela um hobbie e muitas vezes fazia encomendas relacionadas com este desporto a seu irmão José.

Apresentação sumária por partes

Não me irei, entretanto alongar relativamente à Correspondência visada e temática nela existente. De facto, este livro é muito mais do que a sua coleção.

Assim, numa apresentação sumária desta obra, nela encontramos: um estudo introdutório, da autoria de Filipe Delfim Santos. Nele observamos, não só um enquadramento temporal, pessoal e familiar destes dois irmãos; como um aprofundamento descritivo de Antonino como «um irmão à parte» (Conforme aparece retratado nas Páginas do Diário Íntimo, Régio, 2000: 366) que «Tinha um feitio muito especial…, coisa aliás mais ou menos extensiva a todos os irmãos» (Régio, Carta a Flávio Gonçalves, 05.11.1965), e cuja personalidade é equiparada, por Delfim Santos, a uma das personagens de Histórias de Mulheres, 'Rosa brava', caracterizada pelo seu feitio indomesticável e, por vezes, diabólico. O interesse e a admiração pela obra literária do irmão, associados à pretensão crítica e intelectual, ainda que pouco desenvolvida, de Antonino, é outra das abordagens deste estudioso. Ainda, nesta parte se justifica uma das últimas contribuições deste livro: o exercício literário da adaptação do conto 'Uma Anedota de Gaiatos' (da autoria de José Régio), através da devolução dos onomásticos ocultados das personagens ali existentes, sendo que o 'José' é aqui a personagem principal e 'Antonino', a secundária. De facto, esta é também uma forma de melhor conhecermos estes dois irmãos, na sua relação fraternal.

A intercalar este estudo introdutório e a adaptação deste conto encontramos não só a correspondência entre estes dois irmãos, como excertos de Páginas do Diário Íntimo Confissão de um Homem Religioso de José (o Epílogo) e duas missivas do mesmo autor (uma para Flávio Gonçalves; outra para Constantino Maia) que também observam a descrição, não só de Antonino, mas da relação fraternal que com ele tinha José Maria dos Reis Pereira.

Mas não ficamos por aqui: a finalizar este livro, um pequeno álbum fotográfico de família coroado pela tábua cronológica dos irmãos Reis Pereira. Enfim, uma obra completa que não só transcreve, em parte, como deixa adivinhar, a relação deste dois irmãos tão diferentes, mas tão iguais no berço do seu amor fraternal.


Prof. Doutora Maria José Marcelino Madeira D'Ascenção

21 março 2016

A poesia sai à rua numa homenagem ao poeta José Régio - Portalegre, 21.03.2016


Lusa, 08 Mar, 2016, 10:14 | Portalegre evoca José Régio no Dia Mundial da Poesia

O poeta José Régio (19011960) vai ser homenageado em Portalegre, numa iniciativa da Fundação Inatel, que se realiza Dia Mundial da Poesia, a 21 de março, divulgou hoje esta instituição.

A praça da República da cidade altoalentejana e o Centro de Artes e Espetáculos são os cenários para um "espetáculo de homenagem e celebração da vida e obra de Régio, no qual participam vários grupos culturais através da poesia, teatro, música, dança e cinema, numa viagem com encenação a cargo de Hugo Sovelas", segundo fonte da Fundação.

No dia 21, a partir das 16:30, na Praça da República e no Café Concerto do Centro de Artes e Espetáculo, realizam-se "diversas atividades, nas quais a população é desafiada a traduzir a poesia e o colecionismo, duas paixões incontestáveis da personalidade de Régio, através da pintura, desenho e escrita, culminado numa instalação que será exibida no final do espetáculo", segundo a mesma fonte.

A partir das 17:00 realizam-se visitas guiadas à Casa Museu José Régio, que "darão a conhecer o gosto do poeta por antiguidades e pelo colecionismo, num percurso dirigido em que o ator Paulo Bórgia, que dará corpo ao homenageado, revelará uma faceta mais íntima do artista" e o facto de esse gosto, segundo o próprio autor, ter raízes na influência de seu avô.

Às 19:00, no grande auditório do Centro de Artes e Espetáculo, o ator Rui Mendes procederá à leitura do Manifesto da Poesia intitulado "A palavra feita de palavras", um original do escritor José Luís Peixoto.

O espetáculo conta ainda com as participações do Coro Infantil dos Assentos, do grupo de cante alentejano "Os Lagóias" do Orfeão de Portalegre, dos grupos Momentos da Poesia, Amigos da Poesia e Silvina Candeias, de Vocalóide Teatro vocal e coreográfico, e da fadista Alexandra Martins, acompanhada pelos músicos José Sousa, na guitarra portuguesa, e José Geadas, na viola.

Refira-se que José Régio, autor de "Fado português", que Amália Rodrigues gravou, "Cântigo negro" e "Toada de Portalegre", entre outros poemas, foi professor no Liceu Mouzinho da Silveira, na cidade de Portalegre, que preserva a sua casa como museu, incluindo coleções de escultura, pintura, faiança, mobiliário, metais e têxteis, destacando-se a dos Cristos.

A casa era uma pensão, onde Régio alugou um quarto, mas, ao longo dos 34 anos em que viveu na cidade, foi adquirindo outros quartos, até ficar com a casa por completo. Em 1965, Régio vendeu a sua coleção à Câmara Municipal com a condição de esta adquirir a casa, a restaurar e transformar em Museu, ficando o autor de "Vestido cor de fogo" com o usufruto até à sua morte, que ocorreu em Vila do Conde, sua terra natal, a 22 de dezembro de 1969. A Casa Museu abriu portas a 23 de maio de 1971.

Esta iniciativa da Fundação "enquadra-se na missão cultural da INATEL, enquanto consultora da Unesco para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial e pretende evocar a importância do património literário português".

O fadista Ricardo Ribeiro adiantou à Lusa, que está a preparar a composição musical para "Toada de Portalegre", um poema de José Régio, dedicado à cidade, que deverá apresentar no final deste ano, no Teatro Municipal S. Luiz, em Lisboa.

16 dezembro 2015

resenha do Professor Mário Carneiro ao livro 'Cartas de José Régio com seu irmão Antonino'

Caro Filipe,

Ontem à noite acabei de ler o seu livro Correspondência de José Régio com seu irmão Antonino (nov. 2015).


Achei a sua introdução muito interessante, não só pela informação que faculta ao leitor, e que é relevante para uma leitura mais rica e contextualizada das cartas, mas também pelas observações que faz acerca das personalidades e da história pessoal de ambos.

Pareceu-me muito pertinente a opção que tomou de incluir «Recordação de Antonino», de José Constantino Maia. Dá-nos um acesso privilegiado a certos elementos muito significativos da personalidade deste irmão de Régio.

Gostei particularmente das cartas 1 e 2. São interessantíssimos a descrição e os comentários que Antonino faz da e sobre a «sua» Vila do Conde. Igualmente curiosa é, na carta 2, a forma como Antonino expressa a sua leitura psicanalítica da novela «O Vestido Cor de Fogo».

Aliás, estas duas cartas criam no leitor uma expectativa sobre as cartas seguintes de Antonino que infelizmente não se pôde confirmar, pois o problema das partilhas sobrepôs-se a quase tudo o resto, não deixando grande espaço à manifestação do seu lado (provavelmente) mais culto e criativo (este último ilustrado, por exemplo, na passagem da carta 26, em que diz «Nós os portugueses solteiros que vivemos longe da Pátria e não temos família aqui, passamos o Natal e o Ano Novo na boîte dançando e bebendo na companhia de horizontais de todas as nacionalidades»).

Neste ponto, o leitor fica, pelo menos eu fiquei, com o desejo de que Antonino não tivesse morrido tão cedo. Certamente que o desenvolvimento da correspondência entre ambos (após a resolução da «problemática» das partilhas) talvez nos tivesse revelado, relativamente a Antonino, uma personagem bem sui generis, e, relativamente a Régio, o aprofundamento de alguns elementos do seu carácter e personalidade que se evidenciam nestas cartas. Fica-se com pena de que assim não tenha acontecido.

Duas notas finais: gostei do modo como estruturou o livro e que tenha decidido apresentar uma versão desencriptada de «Uma Anedota de Gaiatos».

Concluindo: deixo-lhe as minhas felicitações.

Receba o meu abraço,

Mário Carneiro

Investigador do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa e do Instituto de Filosofia da Universidade do Porto

22 novembro 2015

20 de nov. 2015 - lançamento das cartas de José Régio com seu irmão Antonino

Surpreendente esta edição das cartas trocadas entre José Régio e o seu irmão Antonino que, em 1924, com 19 anos de idade, emigrara para o Brasil e que nunca mais se reuniria com a sua família.


Extrato do 'Estudo Introdutório':


«José e seu irmão Antonino nasceram no mesmo berço e receberam a mesma formação primordial, mas esta produziu resultados divergentes que se evidenciaram logo quando o primeiro rumou a Coimbra para seguir estudos superiores de Letras, optando o segundo, pouco antes de o seu irmão concluir a licenciatura, por uma precoce vida de trabalho e partindo com 19 anos de idade para o Recife, capital do Estado do Pernambuco, no Brasil.

Tal como discorre Régio em carta ao seu amigo Flávio Gonçalves, o Brasil perfilava-se para Antonino como o Eldorado de sonho que o sucesso do tio-avô brasileiro lhe figurava promissor, esse José Maria Pereira que em 09.11.1844, com 14 anos de idade, para escapar às dificuldades de ter nascido entre mais 13 irmãos, tirara passaporte para o mesmo Pernambuco, vindo depois, durante a década de 70 do séc. xix, a fixar-se na capital do Império do Brasil, o Rio de Janeiro. Terá sido a consciência de que a família devia o seu confortável estatuto económico e social à aventura do tio-avô dos irmãos Reis Pereira pelas terras brasílicas que terá atenuado a objeção paterna à emigração de Antonino para o Nordeste brasileiro.

Podemos dizer que Antonino triunfou no Brasil e que simultaneamente se quedou muito aquém dos seus sonhos. Aquém, porque, manifestamente, não conheceu no Recife o sucesso que o seu tio-avô obtivera décadas antes e acabou confinado à mediania de uma existência de empregado de escritório, probo e bem-comportado. Mas a sua emigração foi também um êxito, já que conseguiu integrar-se e aculturar-se, conquistando uma vida estável e socialmente acomodada. Sem essa adaptação ele teria sido forçado a regressar à sua terra natal em falência económica e moral, como sucedera a Manuel da Bouça, o anti-herói de Emigrantes de Ferreira de Castro».









Imagens do lançamento:




Créditos: Florindo Madeira, Filipe Pereira

Ver também:


20 outubro 2015

Mário Cláudio fala sobre José Régio

Escritaria 2015, por Mário Rufino



Durante a entrevista, as recordações do autor concentraram-se na sua relação com outros escritores. Depois de demonstrar a sua proximidade afectiva com Lídia Jorge, Mário Cláudio falou um pouco sobre Eugénio de Andrade, Agustina Bessa-Luís e José Régio.

Curiosa foi a história que Mário Cláudio contou sobre José Régio, com quem conviveu pouco. 

Contou o autor homenageado que um dia dirigiu-se a José Régio para lhe pedir que lesse alguns textos seus.

“São versos?” perguntou José Régio.

“ Sim, são versos”

“Eu estou farto de versos”

“É natural”, respondeu Mário Cláudio, “O senhor já os escreve há tantos anos.”


22 setembro 2015

Exposição "Arte e fraternidade: artistas e cidades irmanadas"



Régio durante as filmagens de As pinturas do meu irmão Julio, obra de Manoel de Oliveira.

A Câmara Municipal de Vila do Conde associada à sua congénere de Portalegre prestam homenagem a José Régio, nos 114 anos do seu nascimento, mantendo viva a memória de um dos maiores vultos das letras de Portugal. Escritor que é património comum de ambos os municípios e através do qual se gerou a geminação que os une.

A exposição "Arte e Fraternidade Artistas e Cidades irmanadas" permite-nos revisitar algumas das obras artísticas e literárias mais relevantes e significativas da autoria de Régio e Julio e, simultaneamente, dar a conhecer as criações, no campo da arte e da literatura, que supomos serem menos conhecidas do grande público, de seus irmãos, Apolinário e João Maria.

Vila do Conde espraiada entre pinhais rio e mar e Portalegre cidade do alto Alentejo juntam-se num hino de louvor ao poeta, tal como ele o fez cantando, como ninguém, as suas cidades de eleição.

Teatro Municipal de Vila do Conde
Inauguração no dia 26 de setembro às 21h30
Terça a sexta: 10h30/12h30 e 14h00/19h00
Sábado: 10h30/12h30 e 14h00/19h00 e 20h30/23h30 (exceto em dias de espetáculo)
Domingo: 15h00/19h00 e 21h00/23h30 (exceto em dias de espetáculo)

04 setembro 2015

Tradução do 'Cântico negro' em romeno



Cântec negru
José Régio (1901-1969)

Unii spun, cu braţele deschise,vino aici,
făcându-mi ochi dulci. fiind convinşi
c-ar fi bine, dacă aşi asculta
când imi spun: “vino aici”!
Eu îi privesc, cu ochi galeşi
(obosiţi, dar plini de ironie)
şi îmi pun braţele în piept,
fiind sigur că nu îi voi urma…
asta este clipa mea de glorie:
să creez o lume barbară!
să nu emulez pe nimeni.
- pentru că trăiesc cu aceeaşi reticenţă
din clipa când m-am desprins din pântecele mumei mele
nu, nu voi merge acolo! Merg doar acolo
unde mă îndeamnă paşii mei…
ca să aflu rostul la care nimeni nu are răspuns
atunci de ce tot mai repeţi: “vino aici”?


Mai degrabă m-aşi târâ prin drumurile pline de noroi,
să flutur în vânt,
ca o cârpă, târându-mi picioarele însângerate, după mine,
decât să merg acolo…
m-am născut pe lume,
doar ca să deflorez pădurile virgine
să-mi îndrept pasii pe plaja nebătută de nimeni!
ori şi ce altceva nu face doi bani.


cum v-aţi închipui să fiţi voi
cei ce m-ar îndemna, cu unelte si curaj
să înving propriile mele obstacole?
sângele strămoşilor nostri curg in venele voastre
iar vouă vă place calea uşoară
mie îmi place Infinitul şi Mirajul
îmi plac adâncurile, torenţii, deşertul…
hai, du-te! Ai drumuri,
ai grădini, ai brazde de flori,
ai o naţiune, ai case,
ai legi, tratate, filosofi şi oameni inţelepţi.
Eu am Folia mea!
o salt sus, ca o făclie arzând în întunericul nopţii,
simţind spumă, sânge şi cântec pe buzele mele…
Dumnezeu si Diavolul mă călăuzesc de-o seamă şi nimeni altcineva!
fiecare a avut un tată, fiecare a avut o mumă;
dar eu, neavând un început sau un sfârşit,
am purces din împreunarea lui Dumnezeu cu Diavolul.


ah! şi nu-mi oferi bunele tale intenţii!
nu-mi cere înţelesuri!
nu-mi spune: “vino aici”!
viaţa mea este un vârtej necontrolat
e un val care se înalţă
e un atom în plus care face explozie
nici nu ştiu în ce direcţie voi sfârşi
nici nu ştiu unde merg,
- ştiu doar că nu merg acolo!


(Rendered in Romanian
by Constantin ROMAN, London,
© 2012, Copyright Constantin ROMAN)


Régio em Abrantes

“Trovas & Canções, actores, poetas e cantores” é o nome do espetáculo que vai subir ao palco do Cineteatro S. Pedro, em Abrantes, na noite de 11 de setembro de 2015, a partir das 21h30.

Um espetáculo inédito que reúne três gerações de atores e outros profissionais em redor da figura do actor Ruy de Carvalho que estará em palco com o filho e o neto, João de Carvalho e Henrique de Carvalho. Em palco estará também a fadista e actriz Ana Marta, prémio Amália revelação 2011, com Diogo Tavares e Ricardo Gama.

“Trovas & Canções, actores, poetas e cantores” mistura teatro, poesia e canções num espetáculo onde os atores interpretam poetas portugueses, tais como Camões, Ary dos Santos, Pedro Homem de Mello, Zeca Afondo, Florbela Espanca, José Régio, Gil Vicente, entre outros.

Os bilhetes custam dez euros e estão à venda no Welcome Center (loja de turismo) no Largo 1º de Maio, através do e-mail: turismo@cm-abrantes.pt ou do contacto: 241 330 100.


06 julho 2015

Cinema “made in” Vila do Conde



Há alguns anos que à volta do Festival Curtas de Vila do Conde se estabeleceu a possibilidade de se produzirem, também, alguns filmes. Da colheita deste ano são hoje exibidos, em estreia, “A Glória de Fazer Cinema em Portugal”, de Manuel Mozos, que aborda a relação do escritor vila-condense José Régio com a sétima arte, e "Vila do Conde Espraiada", que aproveita este famoso verso, também de Régio, para uma viagem por imagens de arquivo em forma de carta-cassete de amor.

Dia 6 de julho de 2015 - para ver às 22h30, no Teatro Municipal.

Bilhetes a 3,50€.


http://lazer.publico.pt/noticias/350585_sugestoes-do-dia-6-de-julho#

Edição revista e aumentada de "Amália quis Deus que fosse o meu nome"


A obra “Amália quis Deus que fosse o meu nome”, do sociólogo e produtor radiofónico Miguel Ferraz, editada em dezembro do ano passado, foi reeditada com “a inclusão de novos depoimentos”, nomeadamente do realizador de rádio António Sala.

A obra resulta de uma entrevista efetuada na casa de Amália, em Lisboa, em novembro de 1989, ano no qual celebrou o cinquentenário de carreira artística.


Nesta entrevista, Amália Rodrigues salientou as influências árabes e também marítimas, na origem do fado, e define esta expressão como “uma queixa”.

“Acho que temos uma influência árabe que os espanhóis também têm, além disso, o fado nasceu no mar”, afirma a fadista, na entrevista, citando em seguida o poema “Fado Português”, de José Régio, que gravou com música de Alain Oulman, para acrescentar que "o fado é uma queixa e nós temos muita razão de nos queixarmos... vida fora”.

Na entrevista, a fadista revela ainda que era “uma pessoa sempre em conflito interior, com aquilo que ouvia, com aquilo que via” e a “fazia muitas vezes chorar e ficar triste”.


Régio chega à Roménia



Georgiana Bărbulescu, conhecida lusista (e lusófila) romena, está neste momento a traduzir as Histórias de mulheres para o idioma dos latinos do Oriente. A obra de Régio começa assim a tocar um dos extremos do arco da latinidade, esse espaço linguístico-cultural imenso que começa no Oriente em Sulina, cidade situada no Delta romeno do Danúbio, e termina nas praias mexicanas do Pacífico, em Tijuana, no extremo ocidental dos países latinófonos, abraçando a metade do Hemisfério Norte - espaço no qual Portugal ocupa o centro.

O interesse de Georgiana Bărbulescu pela obra de Régio é já antigo: foi em 2002, no âmbito do Centro de Língua Portuguesa de Bucareste, que a poetisa e tradutora publicou uma brochura bilingue com cinco poemas de José Régio. Algumas dessas traduções foram depois publicadas numa revista literária do seu país, constituindo a primeira apresentação de Régio aos romenos.

Georgiana Bărbulescu tem desenvolvido na Roménia vários trabalhos poéticos e de ficção sobre poetas portugueses, especialmente em torno de dois nomes que mais interessaram Régio e que ele mais aprofundadamente estudou: Mário de Sá-Carneiro e Florbela Espanca. Ela publicou recentemente uma antologia florbeliana em romeno com o título SĂ IUBESC! (AMAR!), com 53 sonetos, o diário e algumas cartas escolhidas do livro Perdidamente pelo que, ao iniciar a versão romena das Histórias de mulheres, se sentiu em imediata sintonia com o universo ficcional regiano.



Também este ano é esperada a estreia amadora de uma peça de Régio na capital romena, Bucareste.

Contamos apresentar aqui uma pequena entrevista com a tradutora e poetisa romena, que recebeu recentemente o diploma de mérito do I. Camões por ocasião da visita do Presidente de Portugal à Roménia, tão logo terminem os seus trabalhos de tradução das Histórias de mulheres.

Abaixo pode ler-se a versão romena de 'Fado Português', de José Régio, na adaptação de Amália Rodrigues (outra paixão comum entre Régio e Georgiana), na qual se atesta a perfeita correspondência rítmica e rimática do trabalho desta infatigável promotora da lusofilia estrangeira:



05 julho 2015

Nova gravação do 'Fado Português' de José Régio cantado por Amália Rodrigues


Amália Rodrigues "inventou maneira de cantar intemporal"

Amália Rodrigues "inventou uma maneira de cantar que é intemporal", disse à Lusa o investigador Frederico Santiago, que coordenou a edição celebrativa do cinquentenário do álbum 'Fado português', que revela inéditos da fadista e os ensaios em estúdio.Lusa
CULTURA
POR LUSA


A edição, que é publicada na próxima sexta-feira, é um duplo CD, em que inclui todas as sessões de gravação feitas na mesma época, nomeadamente gravações inéditas de temas como 'Gaivota' e ‘Leonor’, e ensaios com o compositor Alain Oulman e os guitarristas.

"Ela inventou uma maneira de cantar que é intemporal, que é mais moderna que a de agora, e também mais antiga que a antiga", disse o investigador e musicólogo, segundo o qual, "Amália é um daqueles artistas ao nível do Miguel Ângelo".

Amália "é uma criadora e é de tal maneira grande e tão boa, musical e poeticamente, que se descobrem sempre novas coisas", realçou.

Frederico Santiago afirmou que, por ocasião dos 50 anos da edição do LP "Fado português", aproveitou "para editar todos os temas que foram gravados nas mesmas sessões, e que foram editados em outras edições dispersas".

Quanto à edição a sair na próxima sexta-feira, com dois CD, um contém 22 temas: os 12 do alinhamento original -- ‘Fado português’, ‘Cantiga de amigo’, ‘Si, si, si’, ‘Erros meus’, ‘Nome de rua’, ‘Na esquina de ver o mar’, ‘Gaivota’, ‘Verde, verde’, ‘Paresito faraón’, ‘Sombra’, ‘Fado corrido’ e ‘Ai Mouraria’ -, e dez outros, também gravados na mesma altura, mas não incluídos no LP editado em junho de 1965, entre os quais se contam ‘Espelho quebrado’, ‘Cansaço’, ‘As águias’, ‘Água e mel’, ‘Fandangueiro’ e ‘Lianor’.

O segundo CD é constituído por gravações inéditas, incluindo os ensaios, e uma versão nunca antes editada de ‘Fado português’ (José Régio/Alain Oulman), gravada em 1967, "mas que fazia sentido incluir".

Entre os ensaios agora trazidos à luz do dia, Frederico Santiago destacou o de ‘Havemos de ir a Viana’, cuja versão definitiva Amália gravaria anos mais tarde, e "que foi uma sorte estar completo, e no qual se vê como Amália era experimentalista".

"Ela experimentava muito e tinha um bom gosto tão alto e uma autocrítica muito grande", afirmou Santiago, que acrescentou: "Aquela coisa de ela dizer que 'foi Deus, foi Deus' é uma grande desculpa dela, para não assumir o quão grande era".

"As suas interpretações nunca deixavam de ser espontâneas, mas ela não se encostava a essa espontaneidade, não achava que por tudo lhe sair bem naturalmente, ia trabalhar para que lhe saísse melhor", realçou.

"Ela só por intuição fazia uma obra-prima, mas não se contentava com o muito bom, queria mesmo o excecional", afirmou.

O músico e investigador salientou "o bom gosto profundo" da fadista, "que a faz nunca estar datada". "Ela nunca canta à anos [19]40, ou à anos [19]50. Ela inventou uma maneira de cantar que é intemporal".

Referindo-se ao álbum ‘Fado português’, Frederico Santiago afirmou que "corresponde ao período áureo, do ponto de vista de impulso criativo, de Alain Oulman - cite-se temas como 'A gaivota' e 'Fado português', um tempo em que os dois [Oulman e Amália] trabalhavam muito juntos".

A fadista voltou a gravar temas de Oulman, nomeadamente no álbum ‘Com que voz’, publicado em 1970, e naquele que foi o seu último álbum, ainda em vida, ‘Obsessão’ (1990), nomeadamente os fados ‘Prece’ e ‘Entrega’, ambos com poemas de Pedro Homem de Mello.

O CD ‘Fado português’ inclui poemas, entre outros, de Mendinho, David Mourão-Ferreira, Carlos Conde, Luís de Macedo, Luís de Camões, Jorge Brum do Canto, Carlos Barbosa de Carvalho e Pedro Homem de Mello.

Esta edição inclui um texto de Fernando Dacosta, ‘Alturas de insenso’, no qual afirma que ‘Camões deu-nos a língua, Pessoa o pensamento, Amália a voz’, e reproduz ainda excertos da correspondência trocada entre a fadista e Oulman, e várias fotos, entre elas uma da fadista apreciando a capa do LP original, bem como textos de contextualização de Frederico Santiago.

Num deles, Santiago afirma que, “se alguma vez existiu 'lied' em português, o seu expoente máximo foi a obra de Alain para a voz de Amália”.


Texto de: http://www.noticiasaominuto.com/cultura/415894/amalia-rodrigues-inventou-maneira-de-cantar-intemporal

12 junho 2015

Inaugurados o Hotel José Régio e a Cafetaria José Régio em Portalegre

Inaugurou hoje o Hotel José Régio, juntamente com a Cafetaria José Régio, no Largo do Rossio, em Portalegre.







Hotel: unidade hoteleira de 4 estrelas.
Cafetaria: página da Cafetaria, no antigo Café Facha.

Aspeto da entrada:

Sala de Jantar:

Corredor:

Quartos:



CONTACTOS
Largo António José Lourinho Nº 1, 3 e 5
7300-088 Portalegre

Telefone: (+351) 245 009 190
Fax: (+351) 245 309 113
E-mail: info@hoteljoseregio.com

11 junho 2015

Revista Delfim Santos Studies

Lançado online o novo site da revista Delfim Santos Studies, publicação dedicada à 'Geração de Ouro' portuguesa, a Geração de Régio:


A revista conta já com os números 1 e 2, seguindo-se a chamada de artigos para o número 3.

24 maio 2015

Inauguração da exposição dos quatro irmãos Reis Pereira


Decorre até 10 de setembro a exposição dos desenhos, aguarelas e pinturas de José Régio e dos seus irmãos Julio, Apolinário e João Maria, na galeria de S. Sebastião, em Portalegre.


30 março 2015

Manuela de Sousa Marques


Faleceu hoje a ensaísta e germanista Maria Manuela de Sousa Marques. Regiana entusiasta, aqui recordamos um ensaio seu sobre a estreia de Benilde ou a Virgem-Mãe:


Uma peça de José Régio – A polémica estreia de Benilde ou a Virgem Mãe



  • Ficha Técnica
  • Autoria: José Régio
  • Estreia: Teatro Nacional, Lisboa
  • Data: 25 de novembro de 1947
  • Benilde: Maria Barroso (1925-)
  • Eduardo: Augusto de Figueiredo (1910-1981)


Será Benilde ou a Virgem Mãe uma obra de bom teatro?

Cremos que não, porque não provoca a imediata adesão ou o antagonismo emocional que o teatro requer. Os aplausos (e as manifestações de desfavor) de que foi alvo na sua estreia em certo aspeto podem ter sido um equivoco. Pois a maior parte das manifestações de simpatia dirigiu-se não à peça acabada de representar mas ao grande poeta que é José Régio. Como tal eram sobejamente compreensíveis e fundadas. Poucas são as ocasiões que nos são dadas para prestar homenagem a um autor da categoria de José Régio. Qualquer obra sua é sempre valiosa. Originada numa emoção revivida, nunca poderá ser oca ou meramente artificiosa, terá a sua marca e, mais ou menos bem sucedida artisticamente, será autêntica confissão de uma alma. Eis porque foi triste a incompreensão dos poucos que se opuseram ao aplauso devido ao poeta, voz sagrada da revelação das trevas e da luz da alma humana.

Os discordantes equivocaram-se quanto ao móbil dos aplausos, supondo que se dirigiam aquela peça e principalmente à tendência «mística» que viam por ela defendida. Foi um «não-apoiado» dirigido a uma ideologia que forçada e arbitrariamente lhe atribuíam e que na peça se não proclamava. Tomando a obra por pretexto de sectarismo esqueceram, tal como muitos dos que a aplaudiram, a peça enquanto peça e o significado mais profundo que ela encerrava. E assim se perdeu de vista, numa superficial apreensão das situações do drama, qual a verdadeira ideia que o animava, qual o cerne mais fundo que ele continha. Pretende-se ver na obra uma apologia mística e nesta interpretação infundada se uniram possivelmente certos entusiastas a certos detratores, reagindo cada partido conforme o respetivo credo.

Talvez que uns e outros sentissem mais ou menos lucidamente que uma lacuna qualquer dificilmente detetável impedia, apesar da excelência dos atores, uma total entrega e arrebatamento, ou imediato ódio e recusa por parte do espetador. Faltava o momento de sintonia emocional em adesão ou violenta repulsa que é um dos momentos decisivos do verdadeiro teatro. Este exige satisfação imediata porque para isso ele é representação dramática (gr. δρᾶμα) em presença. E assim é preciso optar por aceitar ou rejeitar o mundo do poeta que neste caso é o mundo tal como o poeta o mostra, segundo a ordem que a sua emoção lhe imprimiu. E essa ordem no teatro tem de ser ordem e não caos de onde muitas ordens poderiam nascer: uma oculta, do autor, e outras dos espetadores. Porque o teatro é lugar de emoção coletiva, ele exige unívoca mensagem.

Sempre se procura no teatro uma mensagem decisiva; é isso que José Régio, a quem alguém chamou já o poeta da indecisão, não nos dá nesta sua peça. Seria a «mística» que os neorrealistas pateadores inventaram onde não se encontrava. E é isso que todos lhe acrescentam para suprir a lacuna. Porque em Benilde não há uma tendência imediatamente detetável. A sua decisão última é a indecisão. Se as palavras finais de Eduardo «Há seres que não são deste mundo! Mas este mundo ficaria menor se eles não passassem por cá» podem implicar valorização do misticismo por parte do autor, se a semiconclusão de Eduardo pretende encaminhar a simpatia do público para a protagonista; o certo é que apesar de tudo há na própria peça elementos de destruição, de tal modo que, tal como a peça nos é apresentada, ela implica em última instância o fracasso do misticismo.

A tensão dramática resulta unicamente da inclinação do autor para na própria subversão recuperar a beleza da crença mística. Mas para esta arquivivência de Régio, indeciso entre Deus e o Diabo, não há solução libertadora. Refletindo no final sobre a peça, vemos o espírito de Régio pairando sobre a sua criação no angustioso dramatismo da alma que não pode optar, dilacerada na oposição entre ciência e fé, realidade e sonho, crença e descrença, jubilosa exaltação e desespero profundo. Sabemos que a sua grandeza está na vivência profunda dessa perene oscilação. Sabemos também que Régio não podia por isso mesmo negar-nos que uma das faces do mundo de Benilde é patológica e miseravelmente terrena, e que o louco tem uma grande parte de responsabilidade na situação criada – o louco de quem Genoveva afirma que não é tão imbecil como parece; nada disto nos nega Régio, mas ao mesmo tempo compraz-se em negar emocionalmente esta miséria deliciando-se na revelação da beleza poética dos êxtases.

É subtil e poeticamente eficiente para quem lê a sua obra poética. Porém Régio esquece que destinou Benilde ao teatro, e que não é só o pathos lírico que nos impressiona no palco. Esquece também que a sua indecisão provoca no público um mal-estar que dificulta a simpatia pelos voos místicos da protagonista e pela subtil tensão emocional que não permite que a repulsa tome a primazia. Nenhum destes sentimentos se define para se sobrepor ao seu contrário, criando assim um mal-estar que esfria a nossa emoção. No teatro vamos procurar a empatia. Régio, mesmo formalmente, na linguagem que usou, teve um cuidado realista que imprime à peça o aspeto de uma ocorrência real sem fazer intervir a informação formativa da mensagem do autor. Há porém uma mensagem, como já dissemos: a indecisão. Paradoxalmente, e como era de esperar, Régio decide-se pela indecisão. Porém talvez o teatro exija uma mensagem mais simples e imediatamente acessível.


Manuela de Sousa Marques
1947, 2009.

texto em: http://manuela.delfimsantos.net/Regio.html


Todos me vão morrendo, — todos que eram a árvore de que fui um dos ramos.
Cada um que partiu me levou um pedaço vivo da alma.
E agora, partiu Quem amei sobre todas as pessoas do mundo. Já sou um ramo partido que apodrece no chão.


José Régio, A corda tensa, Colheita da Tarde