Mostrar mensagens com a etiqueta novas edições. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta novas edições. Mostrar todas as mensagens

12 abril 2017

Tradução romena de José Régio, com prefácio de Filipe Delfim Santos


José Régio: Femei și poveștile lor 


Femeia care visează la o iubire ca în romane, femeia care trece fulgerător prin viața unui bărbat, femeia nobilă, fidelă toată viața unui logodnic așteptat să se întoarcă, femeia care alege între libertate și iubire, femeia devotată orbește unui copil, femeia care își tulbură soțul tocmai dorindu‑l la fel de mult cum o dorește el […]


PREÇO: 24,90 lei (atualmente esgotado)

TAGS: DRAGOSTE, FEMEI
ISBN: 978-606-771-074-8
COD PRODUS: 9786067710748

https://edituraunivers.ro/produs/femei-si-povestile-lor/

27 março 2017

A primeira tradução romena de um livro integral de José Régio, nos 70 anos de "Histórias de mulheres"

Articulada por Filipe Delfim Santos, que também assina o respetivo prefácio, acaba de ser disponibilizada ao público, com data de 2016, a edição romena de Histórias de mulheres, livro que José Régio coligiu em 1946, nele incluindo alguns contos já publicados e outros inéditos — e que veio a reformular em 1968, dando-lhe a sua forma definitiva com a anteposição da novela Davam grandes passeios aos domingos..., que estreara em 1942.

edição, notável pela sua sobriedade, elegância e aprumo estético, recebeu o novo título de "Mulheres e suas histórias", em romeno Femei și poveștile lor.

A tradução é mais um magnífico trabalho da grande lusista e incansável tradutora Georgiana Bărbulescu, que também redigiu as indispensáveis notas de contextualização.

Georgiana tem sido uma cultora excecional da literatura portuguesa entre o público romeno, a quem oferecera recentemente a tradução de Confissão de Lúcio / Mărturisirea lui Lúcio, de Mário de Sá-Carneiro, um autor da predileção de José Régio.

Em 2002 publicara uma antologia de cinco poemas de José Régio em versão original e tradução romena: A virgem louca / Fecioară rătăcită; Ícaro / Icar; Libertação / Eliberare; Ignoto Deo / Ignoto Deo e Fado português / Fado portughez.

Veja-se o post que aqui deixámos em julho de 2015.

Estão de parabéns a editora, a tradutora e o prefaciador, que tem sabido de forma brilhante levar José Régio ao público estrangeiro, tendo agora assinado o primeiro estudo em inglês sobre a sua obra, Education and the Boarding School Novel, The Work of José Régio (2017).

Ainda uma palavra de apreço pelo Instituto Camões, que auxiliou a EDITURA UNIVERS a materializar este projeto. São estas traduções que merecem todo o apoio e não o financiamento a línguas e a editoras que operam num grande mercado como o inglês. Essas terão meios próprios e mal andará Portugal se lhes custear as edições, mendigando uma atenção que de outra maneira lhe não seria "concedida". Os apoios serão bem mais felizes se forem destinados àquelas línguas que, apesar de ilustres e com literaturas pujantes, se encontram circunscritas geograficamente e alimentam mercados livreiros de menor expressão, sejam elas idiomas exóticos e distantes — ou tão próximos como o dos nossos irmãos latinos do Leste europeu.

Régio.pt

28 dezembro 2016

O primeiro livro em inglês sobre José Régio: "A educação na novela de internato: a obra de José Régio"

FIRST ENGLISH BOOK ABOUT JOSÉ RÉGIO


Education and the Boarding School Novel
The Work of José Régio
2017 - 172 pages
Filipe Delfim Santos

ISBN Paperback: 9789463007399 ($ 54.00)
ISBN Hardcover: 9789463007405 ($ 99.00)
ISBN E-Book: 9789463007412
Subject: Educational Theory


 Free Preview Education and the Boarding School Novel



In this book, the author contributes to genre theory, space theory (suggesting allotopia for heterotopia, or describing hypertopia versus hypotopia), the study of authorship, the formation and education novels, and develops such concepts as Leidensgeschichte or the Telemachus complex. Based on Portuguese writer José Régio’s novel A Drop of Blood (1945), he studies the cultural meaning of the immersion paradigm in education and some historical and anthropological features of boarding schools and other institutions of confinement.

This book is of interest to those studying the philosophy of education, masculinist nineteenth-century educational theories—in particular about masculine friendships—the place of the Bildungsroman in genre theory, Foucault’s ideas on ‘other spaces’, and the implications of narcissism, melancholia, and nostalgia for the trauma narrative.

Buy this book at Amazon:
Paperback | Hardcover

Buy this book at Barnes and Noble:
Paperback | Hardcover

08 setembro 2016

Saiu a Correspondência de José Régio com Eugénio Lisboa - set. 2016


Edição e notas: Filipe Delfim Santos
Prólogo: Eugénio Lisboa
ed. INCM, Lisboa 2016, 368 pp.
preço de capa 27€




Correspondência com Eugénio Lisboa exibe, sob a forma epistolar, a distinta amizade que uniu José Régio e Eugénio Lisboa sendo por inerência um exercício reflexivo sobre os grandes valores da vida, sobre a literatura e o seu processo de criação e, citando Eugénio Lisboa, sobre o «difícil equilíbrio entre o sonho e a disciplina necessária à construção de uma obra».

Com edição de Filipe Delfim Santos este livro conta também com um prólogo de Eugénio Lisboa que contextualiza a história, a amizade, o tempo e o homem.

«É esse acervo de cartas suas, a que junto as que lhe escrevi, que hoje aqui se fixa em livro, por me parecer de interesse humano e literário. Nele, Régio dá eminente testemunho da sua integridade, frontalidade, inteligência e sensibilidade». Eugénio Lisboa.

18 abril 2016

Apresentação do livro 'José Régio: Correspondência com seu irmão Antonino', organizada por Filipe Delfim Santos

Casa Museu José Régio, 18 de abril de 2016, 18.00H
Com a presença de Filipe Delfim Santos e de Manuela Neves Pereira



O Livro

Devo começar por informar que, neste livro, presentifica-se a correspondência a Antonino do homem, José Maria dos Reis Pereira, e não do escritor, José Régio. Embora nela encontremos traços de estilo inequivocamente regianos (de escrita, de linguagem, de pensamento) pois que inequivocamente o homem serve ao escritor, não mesclemos o primeiro com o segundo. Esta correspondência deixa, assim, conjeturar o homem, José Maria dos Reis Pereira, numa relação, que pessoalmente considero muito íntima, privada: a fraternal, em todos os ângulos afetivos, emocionais e, neste caso, e principalmente, legais (lei/legado) que tal acarreta.

De facto, neste volume, temos acesso a uma correspondência persistente (note-se que estão aqui recolhidas 65 missivas que, desde a terceira carta aqui integrada, balizam temporalmente o começo em 1957 e o final em 1965), contrastando com a correspondência anterior, que se extraviou, e que se adivinha ter sido ocasional (de finais dos anos 20 a finais dos anos 50), da qual apenas aqui constam as duas primeiras epístolas apresentadas (uma de 1929, outra de 1949).

Aludindo sucintamente à história de vida de Antonino, este tinha emigrado para o Brasil ainda muito jovem. Lá, e conforme F. Delfim Santos refere nesta obra, acabara «confinado à mediania de uma existência de empregado de escritório, probo e bem-comportado» (p. 16). Com efeito, Antonino nunca regressaria em vida a Portugal, sendo que o próprio José Maria dos Reis Pereira, naquela que era a sua consciência de família e de união da mesma, consegue que, anos depois do seu falecimento, os seus restos mortais sejam trazidos para Portugal e integrem o jazido da família em Vila do Conde.

A corrente missiva que aqui se foca, entre José Maria dos Reis Pereira (o mais velho de seus irmãos Júlio, Antonino, Ana, Apolinário e João Maria, sendo que antes dele ainda nascera uma irmã que falecera em criança) e Antonino, trata predominantemente de um aspeto que preenche os contornos de uma relação fraternal, numa vertente legal: o das partilhas da herança da família, legada por falecimento de seu pai. De facto, esta correspondência sobressai no tratamento deste tema, parecendo anunciar uma certa frieza ou materialismo por parte dos irmãos; todavia há que contemplar o tratamento de etapas burocráticas generosas (em quantidade e qualidade) que os processos de herança e partilhas acarretam, associando-se estes à distância geográfica que apartava (e muito) os dois irmãos e que muito acabava por intrincar (aliás, percebe-se pela correspondência que o mesmo se passara com o seu outro irmão, Apolinário, pois que este vivia então em Angola). A acrescentar, o acervo de correspondência nesta temática também se justifica na descrição minuciosa e transparente das partilhas, de modo a manter uma relação fraternal de confiança e cumplicidade. Com efeito, o próprio José Maria dos Reis Pereira refere na carta 48: «Felizmente, tudo tem vindo correndo bem, sem essas questões que tanto me chocam nas famílias que se zangam por causa de interesses em luta» (pp. 215-216).

Ainda, nesta correspondência, além da exploração deste tema, outros são abordados. Assim, esparsa e pontualmente são refletidos aspetos da vida do escritor (as suas obras, algumas das suas personagens e narrativas, a sua intelectualidade, os seus prémios, a sua notoriedade: de facto, Antonino nunca deixa de manifestar grande admiração e orgulho fraternal pelo percurso intelectual do seu irmão); a vida social, económica e parcamente intelectual (e até íntima…) de Antonino no Brasil; o relato de pequenas vivências em família, por parte de José, no Natal, principalmente. Outro tema, aquele que mais se destaca, a seguir ao que trespassa maioritariamente toda a correspondência, é o da pesca. Antonino fizera dela um hobbie e muitas vezes fazia encomendas relacionadas com este desporto a seu irmão José.

Apresentação sumária por partes

Não me irei, entretanto alongar relativamente à Correspondência visada e temática nela existente. De facto, este livro é muito mais do que a sua coleção.

Assim, numa apresentação sumária desta obra, nela encontramos: um estudo introdutório, da autoria de Filipe Delfim Santos. Nele observamos, não só um enquadramento temporal, pessoal e familiar destes dois irmãos; como um aprofundamento descritivo de Antonino como «um irmão à parte» (Conforme aparece retratado nas Páginas do Diário Íntimo, Régio, 2000: 366) que «Tinha um feitio muito especial…, coisa aliás mais ou menos extensiva a todos os irmãos» (Régio, Carta a Flávio Gonçalves, 05.11.1965), e cuja personalidade é equiparada, por Delfim Santos, a uma das personagens de Histórias de Mulheres, 'Rosa brava', caracterizada pelo seu feitio indomesticável e, por vezes, diabólico. O interesse e a admiração pela obra literária do irmão, associados à pretensão crítica e intelectual, ainda que pouco desenvolvida, de Antonino, é outra das abordagens deste estudioso. Ainda, nesta parte se justifica uma das últimas contribuições deste livro: o exercício literário da adaptação do conto 'Uma Anedota de Gaiatos' (da autoria de José Régio), através da devolução dos onomásticos ocultados das personagens ali existentes, sendo que o 'José' é aqui a personagem principal e 'Antonino', a secundária. De facto, esta é também uma forma de melhor conhecermos estes dois irmãos, na sua relação fraternal.

A intercalar este estudo introdutório e a adaptação deste conto encontramos não só a correspondência entre estes dois irmãos, como excertos de Páginas do Diário Íntimo Confissão de um Homem Religioso de José (o Epílogo) e duas missivas do mesmo autor (uma para Flávio Gonçalves; outra para Constantino Maia) que também observam a descrição, não só de Antonino, mas da relação fraternal que com ele tinha José Maria dos Reis Pereira.

Mas não ficamos por aqui: a finalizar este livro, um pequeno álbum fotográfico de família coroado pela tábua cronológica dos irmãos Reis Pereira. Enfim, uma obra completa que não só transcreve, em parte, como deixa adivinhar, a relação deste dois irmãos tão diferentes, mas tão iguais no berço do seu amor fraternal.


Prof. Doutora Maria José Marcelino Madeira D'Ascenção

16 dezembro 2015

resenha do Professor Mário Carneiro ao livro 'Cartas de José Régio com seu irmão Antonino'

Caro Filipe,

Ontem à noite acabei de ler o seu livro Correspondência de José Régio com seu irmão Antonino (nov. 2015).


Achei a sua introdução muito interessante, não só pela informação que faculta ao leitor, e que é relevante para uma leitura mais rica e contextualizada das cartas, mas também pelas observações que faz acerca das personalidades e da história pessoal de ambos.

Pareceu-me muito pertinente a opção que tomou de incluir «Recordação de Antonino», de José Constantino Maia. Dá-nos um acesso privilegiado a certos elementos muito significativos da personalidade deste irmão de Régio.

Gostei particularmente das cartas 1 e 2. São interessantíssimos a descrição e os comentários que Antonino faz da e sobre a «sua» Vila do Conde. Igualmente curiosa é, na carta 2, a forma como Antonino expressa a sua leitura psicanalítica da novela «O Vestido Cor de Fogo».

Aliás, estas duas cartas criam no leitor uma expectativa sobre as cartas seguintes de Antonino que infelizmente não se pôde confirmar, pois o problema das partilhas sobrepôs-se a quase tudo o resto, não deixando grande espaço à manifestação do seu lado (provavelmente) mais culto e criativo (este último ilustrado, por exemplo, na passagem da carta 26, em que diz «Nós os portugueses solteiros que vivemos longe da Pátria e não temos família aqui, passamos o Natal e o Ano Novo na boîte dançando e bebendo na companhia de horizontais de todas as nacionalidades»).

Neste ponto, o leitor fica, pelo menos eu fiquei, com o desejo de que Antonino não tivesse morrido tão cedo. Certamente que o desenvolvimento da correspondência entre ambos (após a resolução da «problemática» das partilhas) talvez nos tivesse revelado, relativamente a Antonino, uma personagem bem sui generis, e, relativamente a Régio, o aprofundamento de alguns elementos do seu carácter e personalidade que se evidenciam nestas cartas. Fica-se com pena de que assim não tenha acontecido.

Duas notas finais: gostei do modo como estruturou o livro e que tenha decidido apresentar uma versão desencriptada de «Uma Anedota de Gaiatos».

Concluindo: deixo-lhe as minhas felicitações.

Receba o meu abraço,

Mário Carneiro

Investigador do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa e do Instituto de Filosofia da Universidade do Porto

22 novembro 2015

20 de nov. 2015 - lançamento do carteio de José Régio com seu irmão Antonino

Surpreendente esta edição das cartas trocadas entre José Régio e o seu irmão Antonino que, em 1924, com 19 anos de idade, emigrara para o Brasil e que nunca mais se reuniria com a sua família.


Extrato do 'Estudo Introdutório':


«José e seu irmão Antonino nasceram no mesmo berço e receberam a mesma formação primordial, mas esta produziu resultados divergentes que se evidenciaram logo quando o primeiro rumou a Coimbra para seguir estudos superiores de Letras, optando o segundo, pouco antes de o seu irmão concluir a licenciatura, por uma precoce vida de trabalho e partindo com 19 anos de idade para o Recife, capital do Estado do Pernambuco, no Brasil.

Tal como discorre Régio em carta ao seu amigo Flávio Gonçalves, o Brasil perfilava-se para Antonino como o Eldorado de sonho que o sucesso do tio-avô brasileiro lhe figurava promissor, esse José Maria Pereira que em 09.11.1844, com 14 anos de idade, para escapar às dificuldades de ter nascido entre mais 13 irmãos, tirara passaporte para o mesmo Pernambuco, vindo depois, durante a década de 70 do séc. xix, a fixar-se na capital do Império do Brasil, o Rio de Janeiro. Terá sido a consciência de que a família devia o seu confortável estatuto económico e social à aventura do tio-avô dos irmãos Reis Pereira pelas terras brasílicas que terá atenuado a objeção paterna à emigração de Antonino para o Nordeste brasileiro.

Podemos dizer que Antonino triunfou no Brasil e que simultaneamente se quedou muito aquém dos seus sonhos. Aquém, porque, manifestamente, não conheceu no Recife o sucesso que o seu tio-avô obtivera décadas antes e acabou confinado à mediania de uma existência de empregado de escritório, probo e bem-comportado. Mas a sua emigração foi também um êxito, já que conseguiu integrar-se e aculturar-se, conquistando uma vida estável e socialmente acomodada. Sem essa adaptação ele teria sido forçado a regressar à sua terra natal em falência económica e moral, como sucedera a Manuel da Bouça, o anti-herói de Emigrantes de Ferreira de Castro».









Imagens do lançamento:




Créditos: Florindo Madeira, Filipe Pereira

Ver também:


06 julho 2015

Edição revista e aumentada de "Amália quis Deus que fosse o meu nome"


A obra “Amália quis Deus que fosse o meu nome”, do sociólogo e produtor radiofónico Miguel Ferraz, editada em dezembro do ano passado, foi reeditada com “a inclusão de novos depoimentos”, nomeadamente do realizador de rádio António Sala.

A obra resulta de uma entrevista efetuada na casa de Amália, em Lisboa, em novembro de 1989, ano no qual celebrou o cinquentenário de carreira artística.


Nesta entrevista, Amália Rodrigues salientou as influências árabes e também marítimas, na origem do fado, e define esta expressão como “uma queixa”.

“Acho que temos uma influência árabe que os espanhóis também têm, além disso, o fado nasceu no mar”, afirma a fadista, na entrevista, citando em seguida o poema “Fado Português”, de José Régio, que gravou com música de Alain Oulman, para acrescentar que "o fado é uma queixa e nós temos muita razão de nos queixarmos... vida fora”.

Na entrevista, a fadista revela ainda que era “uma pessoa sempre em conflito interior, com aquilo que ouvia, com aquilo que via” e a “fazia muitas vezes chorar e ficar triste”.


Régio chega à Roménia

Georgiana Bărbulescu, conhecida lusista (e lusófila) romena, está neste momento a traduzir as Histórias de mulheres para o idioma dos latinos do Oriente. A obra de Régio começa assim a tocar um dos extremos do arco da latinidade, esse espaço linguístico-cultural imenso que começa no Oriente em Sulina, cidade situada no Delta romeno do Danúbio, e termina nas praias mexicanas do Pacífico, em Tijuana, no extremo ocidental dos países latinófonos, abraçando a metade do Hemisfério Norte - espaço no qual Portugal ocupa o centro.

O interesse de Georgiana Bărbulescu pela obra de Régio é já antigo: foi em 2002, no âmbito do Centro de Língua Portuguesa de Bucareste, que a poetisa e tradutora publicou uma brochura bilingue com cinco poemas de José Régio. Algumas dessas traduções foram depois publicadas numa revista literária do seu país, constituindo a primeira apresentação de Régio aos romenos.

Georgiana Bărbulescu tem desenvolvido na Roménia vários trabalhos poéticos e de ficção sobre poetas portugueses, especialmente em torno de dois nomes que mais interessaram Régio e que ele mais aprofundadamente estudou: Mário de Sá-Carneiro e Florbela Espanca. Ela publicou recentemente uma antologia florbeliana em romeno com o título SĂ IUBESC! (AMAR!), com 53 sonetos, o diário e algumas cartas escolhidas do livro Perdidamente pelo que, ao iniciar a versão romena das Histórias de mulheres, se sentiu em imediata sintonia com o universo ficcional regiano.



Também este ano é esperada a estreia amadora de uma peça de Régio na capital romena, Bucareste.

Contamos apresentar aqui uma pequena entrevista com a tradutora e poetisa romena, que recebeu recentemente o diploma de mérito do I. Camões por ocasião da visita do Presidente de Portugal à Roménia, tão logo terminem os seus trabalhos de tradução das Histórias de mulheres.

Abaixo pode ler-se a versão romena de 'Fado Português', de José Régio, na adaptação de Amália Rodrigues (outra paixão comum entre Régio e Georgiana), na qual se atesta a perfeita correspondência rítmica e rimática do trabalho desta infatigável promotora da lusofilia estrangeira:



05 julho 2015

Nova gravação do 'Fado Português' de José Régio cantado por Amália Rodrigues


Amália Rodrigues "inventou maneira de cantar intemporal"

Amália Rodrigues "inventou uma maneira de cantar que é intemporal", disse à Lusa o investigador Frederico Santiago, que coordenou a edição celebrativa do cinquentenário do álbum 'Fado português', que revela inéditos da fadista e os ensaios em estúdio.Lusa
CULTURA
POR LUSA


A edição, que é publicada na próxima sexta-feira, é um duplo CD, em que inclui todas as sessões de gravação feitas na mesma época, nomeadamente gravações inéditas de temas como 'Gaivota' e ‘Leonor’, e ensaios com o compositor Alain Oulman e os guitarristas.

"Ela inventou uma maneira de cantar que é intemporal, que é mais moderna que a de agora, e também mais antiga que a antiga", disse o investigador e musicólogo, segundo o qual, "Amália é um daqueles artistas ao nível do Miguel Ângelo".

Amália "é uma criadora e é de tal maneira grande e tão boa, musical e poeticamente, que se descobrem sempre novas coisas", realçou.

Frederico Santiago afirmou que, por ocasião dos 50 anos da edição do LP "Fado português", aproveitou "para editar todos os temas que foram gravados nas mesmas sessões, e que foram editados em outras edições dispersas".

Quanto à edição a sair na próxima sexta-feira, com dois CD, um contém 22 temas: os 12 do alinhamento original -- ‘Fado português’, ‘Cantiga de amigo’, ‘Si, si, si’, ‘Erros meus’, ‘Nome de rua’, ‘Na esquina de ver o mar’, ‘Gaivota’, ‘Verde, verde’, ‘Paresito faraón’, ‘Sombra’, ‘Fado corrido’ e ‘Ai Mouraria’ -, e dez outros, também gravados na mesma altura, mas não incluídos no LP editado em junho de 1965, entre os quais se contam ‘Espelho quebrado’, ‘Cansaço’, ‘As águias’, ‘Água e mel’, ‘Fandangueiro’ e ‘Lianor’.

O segundo CD é constituído por gravações inéditas, incluindo os ensaios, e uma versão nunca antes editada de ‘Fado português’ (José Régio/Alain Oulman), gravada em 1967, "mas que fazia sentido incluir".

Entre os ensaios agora trazidos à luz do dia, Frederico Santiago destacou o de ‘Havemos de ir a Viana’, cuja versão definitiva Amália gravaria anos mais tarde, e "que foi uma sorte estar completo, e no qual se vê como Amália era experimentalista".

"Ela experimentava muito e tinha um bom gosto tão alto e uma autocrítica muito grande", afirmou Santiago, que acrescentou: "Aquela coisa de ela dizer que 'foi Deus, foi Deus' é uma grande desculpa dela, para não assumir o quão grande era".

"As suas interpretações nunca deixavam de ser espontâneas, mas ela não se encostava a essa espontaneidade, não achava que por tudo lhe sair bem naturalmente, ia trabalhar para que lhe saísse melhor", realçou.

"Ela só por intuição fazia uma obra-prima, mas não se contentava com o muito bom, queria mesmo o excecional", afirmou.

O músico e investigador salientou "o bom gosto profundo" da fadista, "que a faz nunca estar datada". "Ela nunca canta à anos [19]40, ou à anos [19]50. Ela inventou uma maneira de cantar que é intemporal".

Referindo-se ao álbum ‘Fado português’, Frederico Santiago afirmou que "corresponde ao período áureo, do ponto de vista de impulso criativo, de Alain Oulman - cite-se temas como 'A gaivota' e 'Fado português', um tempo em que os dois [Oulman e Amália] trabalhavam muito juntos".

A fadista voltou a gravar temas de Oulman, nomeadamente no álbum ‘Com que voz’, publicado em 1970, e naquele que foi o seu último álbum, ainda em vida, ‘Obsessão’ (1990), nomeadamente os fados ‘Prece’ e ‘Entrega’, ambos com poemas de Pedro Homem de Mello.

O CD ‘Fado português’ inclui poemas, entre outros, de Mendinho, David Mourão-Ferreira, Carlos Conde, Luís de Macedo, Luís de Camões, Jorge Brum do Canto, Carlos Barbosa de Carvalho e Pedro Homem de Mello.

Esta edição inclui um texto de Fernando Dacosta, ‘Alturas de insenso’, no qual afirma que ‘Camões deu-nos a língua, Pessoa o pensamento, Amália a voz’, e reproduz ainda excertos da correspondência trocada entre a fadista e Oulman, e várias fotos, entre elas uma da fadista apreciando a capa do LP original, bem como textos de contextualização de Frederico Santiago.

Num deles, Santiago afirma que, “se alguma vez existiu 'lied' em português, o seu expoente máximo foi a obra de Alain para a voz de Amália”.


Texto de: http://www.noticiasaominuto.com/cultura/415894/amalia-rodrigues-inventou-maneira-de-cantar-intemporal

11 junho 2015

Revista Delfim Santos Studies

Lançado online o novo site da revista Delfim Santos Studies, publicação dedicada à 'Geração de Ouro' portuguesa, a Geração de Régio:


A revista conta já com os números 1 e 2. Em 2017 serão lançados o 3 e o 4.

26 março 2015

Henrique Villaret escreve biografia de João Villaret destacando a correspondência com José Régio


Henrique Villaret escreve biografia de João Villaret


João Villaret - Duas mãos que abertas deram tudo


Esta fotobiografia escrita por Henrique Villaret, foi apresentada no dia 27 de Março no Salão Nobre do Teatro Nacional D. Maria II.

Resultado de um longo trabalho de investigação, recolha e organização, esta obra comemorativa do centenário do nascimento de João Villaret (1913-1961) inclui inéditos da vida artística daquele a quem em Portugal chamavam «Génio Dramático» e no Brasil «Milagre Humano».

Com capa dura, tem 520 páginas. PORÉM, LAMENTA-SE A AUSÊNCIA DO ÍNDICE ONOMÁSTICO, INDISPENSÁVEL NUMA OBRA DESTE TIPO.

Ao longo do livro, é de destacar a correspondência com António Botto, Miguel Torga, Palmira Bastos, João Gaspar Simões, Alfredo Cortez, José Régio...

LER MAIS AQUI
E EM: 'CORRESPONDÊNCIA' 2015.

Livro de poemas de Barroso da Fonte "Braços duma cruz" transcreve carta de José Régio



Durante algum tempo desconheci a criatividade poética de Barroso da Fonte e com o seu livro «Braços duma Cruz», pude saborear 122 poemas da sua juventude, de 1958 a 1961, que estavam perdidos no meio de outro imenso espólio bibliográfico.

É uma edição fac-similada e bem coordenada pelo seu filho, João Pedro Miranda, da Editora Cidade-Berço, de 2015, em que Barroso da Fonte usava o pseudónimo raiano de João Montaño.

Tem uma cruz na capa e a contracapa é a reprodução de uma carta manuscrita de 10.09.1966, que lhe endereçou o escritor José Régio já doente, três anos antes de falecer, agradecendo-lhe os livros «Neves e Altura» e «Formas e Sombras» e diz-lhe:

«(…) O meu Amigo tem que dizer e di-lo, - não se acorrente à moda dos formalismos requintados e ocos. (…)
Também lhe aconselharia a leitura dos nossos grandes poetas e prosadores clássicos (…).
De vez em vez, há versos bastante felizes, versos cheios, nos seus poemas (…)».


O «Preâmbulo» dos «Braços duma Cruz» é assinado pelo João Montaño, tão destemido e de rosto inteiro como Barroso da Fonte que conhecemos e diz-nos:

«acima de tudo amo a lealdade. Poderia ocultar muitos destes versos censuráveis, (…) aproveito tudo quanto tenho de bom e mau».

Amigo leitor, se tiver oportunidade, leia este livro raro, de edição limitada, de belos poemas, dum poeta «antes quebrar que torcer», podendo ser pedido para ecb@mail.pt.

Ler mais em: http://tempocaminhado.blogspot.pt/2015/03/livro-bracos-duma-cruz-com-carta.html.

Ver carta em CARTAS AVULSAS DE JOSÉ RÉGIO.






11 março 2015

'Os poetas' de José Régio em novo disco do cantor José Cid



Chega em abril o novo álbum de José Cid. Menino-Prodígio , «álbum muito roqueiro, muito verdadeiro e completamente analógico», terá festa de lançamento a 5 desse mês e Cid avança à BLITZ que o mesmo foi gravado apenas com três músicos: Luís Varatojo (Pólo Norte) na bateria, Chico Martins nas guitarras e contrabaixo e Cid em órgão hammond. Convidados especiais, refere Cid, apenas um: o escritor José Régio, que «oferece» a letra a uma das canções.

Ler mais aqui.

«Há ainda, neste disco, um poema brutal de José Régio, ‘Os poetas (Há certos Reis…)’, que é muito interveniente, que tem tudo a ver com a atual situação política, não só do país, como global», sentenciou (...)».

Ler mais aqui.

27 outubro 2013

CONFIDÊNCIAS AFRICANAS DE UM REBELDE



Jorge Manuel Martins




(Comunicação no lançamento das Memórias de Eugénio Lisboa, vol. III, Centro Nacional de Cultura, Lisboa, 24/10/2013)


Para a Maria Eugénia Lisboa


Estamos em presença do terceiro volume das memórias de Eugénio Lisboa (EL), reunidas sob o título comum de Acta Est Fabula. Sabendo que tal expressão servia, no antiquíssimo teatro romano, para anunciar o final de um espetáculo, podemos com propriedade chamar «atores» às personagens que habitam estas memórias. Ora, neste terceiro volume (Lisboa, 2013), um dos atores chamados a palco dá pelo nome de Pegado, mestiço jeitoso para eletricidades e máquinas. Quando alguém lhe pedia um conserto, o Pegado respondia sem pestanejar: «Pode-se dar um jeito...». Idêntico atrevimento deve ter-me assaltado, quando aceitei o desafio de apresentar este volume no Centro Nacional de Cultura, em Lisboa. E enquanto esperava pelo original e dele só conhecia o título, fui ensaiando várias hipóteses de «dar um jeito» a tão lisonjeiro desafio, eu que nunca estive em Moçambique!

À sua chegada ao espaço público, estas memórias parecem apostadas, de imediato, em provocar ou pelo menos intrigar o leitor. Por um lado, o título deixa supor alguma melancolia, uma vez que a expressão «acta est fabula» – a crer em Suetónio – também serviu ao imperador Augusto como despedida derradeira. Mas, por outro lado, todos quantos conhecemos de perto EL sabemos como o seu discurso é sempre marcado pelo vivido, pelo entusiasmo contagiante, pela recusa do trivial e choramingas «era uma vez». Portanto, embora intrigados, retenhamos para já, deste título geral, a saborosa evocação do palco romano e comecemos pela mais óbvia das hipóteses: a de que as presentes memórias saem à rua sob o signo do teatro.

Desde os seus primeiros ensaios, EL revelou-se sempre um arguto analista das emoções em cena. Recorde-se a atenção dedicada às grandes dramaturgias, como as de Régio ou de Montherlant. E agora, com este terceiro volume, ficámos a saber que não perdia as melhores representações quando vinha à Europa e que, mesmo durante um estágio de petróleos na África do Sul, não dispensava, como refere, «alguns livros de algibeira (sobretudo teatro)» (ibidem: 253).

Curiosamente, a época, a que corresponde o presente volume, coincide com as metáforas do meio teatral aplicadas, por Erving Goffman, ao estudo das subtis interações entre os diferentes atores sociais, nas ordens doméstica e organizacional. E foi pela mesma época que um outro sociólogo, Howard Becker, começou a recorrer à sua experiência de pianista de jazz para desenvolver o conceito de «redes de cooperação» nas profissões dos mundos da arte. É sabido que tal atenção às dramaturgias do quotidiano contribuiu para a renovação da sociologia da comunicação e da cultura e, por outro lado, que as assombrosas coincidências, entre o que os escritores «sabem» e o que os cientistas «procuram», já deram origem a estimulantes ensaios de epistemologia literária, como o de Vintila Horia.

Assim, não parece despropositado sugerir, como uma das chaves de leitura do presente volume de memórias, as dimensões do teatro e da contemporaneidade. Mas a ocasião não será a adequada para avançar em tal direção. Até porque a longa «peça de teatro» agora em cena, apesar do seu título geral, ainda não terminou. Suspeito mesmo que o seu autor já se encontra a escrever o quarto ato, pois em tempos, numa entrevista a Júlio Conrado, EL revelou o seguinte: «Não descanso enquanto não escrever as minhas memórias de Londres, (...) anos cheios, inesquecíveis, de teatro (de teatro!), de música, de livros, de viagens, de encontros, de inspiração» (Lisboa, 1998). Como vemos, a primeira e mais enfatizada memória de Londres é... o teatro!

Entretanto, como o original deste terceiro tomo das memórias continuava a não me chegar em versão papel (para mim, está fora de questão ler 500 páginas no ecrã...), fui ensaiando um segundo modelo de aproximação. Sabendo que o presente volume abre com o regresso a África (em 1955) e se prolonga até à saída definitiva de Moçambique (em 1976), decidi reler os testemunhos das personalidades que, tendo lá convivido com EL durante essas duas décadas, colaboraram no recente livro de homenagem coletiva (Martins e Almeida, 2011). Desses textos «africanos», peço licença para escolher três: os de Ana Mafalda Leite, Carlos Adrião Rodrigues e Frederico Monteiro da Silva.

Ana Mafalda Leite dirige uma bela carta ao seu «amigo e professor» que, em 1975-76, na nova cidade de Maputo, conseguia fazer entrar Gide, Montherlant, Régio, Sena e muitos outros pela sala dentro.  E recorda como esses autores passavam a ser verdadeiras «personagens» do quotidiano universitário, por cortesia de um professor que, de modo entusiástico, «os dramatizava em viva biografia» (graças à sua paixão pelo teatro, digo eu...). A certo passo, escreve ainda a antiga aluna: «O nosso Professor Eugénio tinha e tem um não sei quê de dandy, que contracena com a sua segura boa disposição» – (de novo o teatro...) –, «sempre atento à importância da arte e da literatura, fontes e pontes para a vida, e não o inverso».

Carlos Adrião Rodrigues evoca a participação de EL e outros amigos em «projetos comuns» e «campanhas oposicionistas» em Lourenço Marques. E conta episódios reveladores, concluindo: «os que acreditavam que a arte tinha um valor específico, que não se compadecia com espartilhos ideológicos, eram os que, em sociedade, tomavam posições mais corajosas e coerentes em defesa da liberdade e da justiça». Dizia ainda este ilustre advogado, entretanto falecido: ao EL ficou a dever-se a luta «por uma cultura moçambicana», em conjugação «com a universalidade da grande cultura», através do «intermediário estético que era a língua portuguesa», por certo o «principal fator capaz de fazer do Moçambique colonial um país e uma nação». 

Frederico Monteiro da Silva, desde 1958 «colega engenheiro» na Total (filial da Compagnie Française des Pétroles para a África Austral), confessa-se admirador das qualidades de EL, enumerando-as assim: «vício da leitura», «integridade e talento», «hábitos frugais», «prodigiosa memória», «muita e variada erudição». Entre outras informações, Monteiro da Silva conta que EL, regressado do Técnico e de novo em Lourenço Marques, «destacou-se nas tertúlias intelectuais da cidade» e passou a ser «a consciência intelectual dos Jovens Naturais de Moçambique», colaborando sempre «em jornais e revistas de Moçambique e de Portugal europeu, cuja prática mantém até hoje».

Resumidos, assim, três dos muitos e interessantes testemunhos do citado livro de homenagem, reconheça-se, mais uma vez, não ser este o lugar apropriado para dar conta de um «trabalho de campo» a haver (quando possível): o de entrevistar atores sociais que partilharam o quotidiano de EL em Moçambique, nas duas décadas correspondentes a este terceiro volume de memórias, com o objetivo de cruzar fontes de informação.

*** ***

Até aqui, foram enunciadas algumas hipóteses para um modelo de análise desta obra. Porém, uma vez recebido o original (logo devorado e a seguir relido e muito sublinhado, como é meu antiquíssimo hábito...), dei por mim a perguntar-me: qual será, no futuro, o público deste livro? Esta questão, colocada assim à cabeça, denuncia por demais a minha tineta de profissional e professor de comunicação e marketing. Deixem-me, porém, repetir a pergunta, de modo ainda mais desabrido: quem será o cliente deste produto? 

Para alguns ouvidos, a inscrição do livro em tais parâmetros comerciais pode ser chocante e, «embora ditada por boas razões metodológicas de enquadramento na recente economia da cultura, não é isenta de riscos»; um desses riscos pode ser o de «caucionar o atual pendor internacional de obediência (quase) cega à ditadura do cliente médio e de transferência, para a esfera da difusão, da responsabilidade das decisões da produção» (Martins, 2007). Mas eu sei que esta linguagem não é chocante para EL. O mesmo autor que lamenta como «o mercado e a generalidade das pessoas respiram mal o sublime», também reconhece que «podemos ter um grande produto a mostrar, mas é preciso publicitá-lo intensamente e isso custa dinheiro» (Lisboa, 2011). Quem se atreve a discordar? A diferença entre qualidade-técnica e qualidade-percebida já não oferece dúvidas, mesmo no sector português da gestão cultural.

Regressando à minha impertinente questão: nestes tempos em que predomina o entretenimento trivial e chão, quem vai ler estas 500 páginas de impressionante literatura memorialística? Façamos algumas contas. Este terceiro volume propõe o regresso aos anos 55-76 do século passado em Moçambique. Arredondando e simplificando, são memórias de há 60, 50 e 40 anos, vividos numa antiga colónia lusófona. Quem serão, hoje, os potenciais leitores médios deste testemunho de vida?

A geração dos meus filhos e dos meus alunos –  que anda agora pelos 30, 40 e 50 anos – configura o segmento mais apetecido pela indústria livreira, pois é aí que se verificam (segundo os estudos recentes) as melhores práticas de leitura, mesmo em concorrência com outras solicitações (Santos, 2007). Acontece, porém, que os membros desta geração não viveram pessoalmente o tempo das presentes memórias ou, então, nessa época não tinham ainda acordado verdadeiramente para a vida. Para a maioria deles, o Estado Novo, a Guerra Colonial ou o Abril de 1974 situam-se algures num passado muito remoto, de brumas, aljubarrotas e fotos a preto e branco. E acontece também que, viciada no toca-e-foge digital da comunicação instantânea e impaciente, esta geração parece revelar algum medo do silêncio e do tempo, indispensáveis para ler um livro como o agora editado.

Por tudo isso, se eu pudesse e soubesse, gostaria de me dirigir especialmente à geração dos meus filhos e dos meus alunos (as filhas de EL, ambas grandes leitoras, pertencem a tal geração e, por isso, o meu presente texto é dedicado à mais velha, a Maria Eugénia), com o objetivo de lhes apresentar as memórias de EL e aliciá-los a lê-las. Para quê? Para que pudessem perceber por dentro a geração anterior à sua e, assim, perceberem-se melhor a si próprios. E também para tentar ampliar a imensa minoria que sabe como um bom livro não dá para viver, mas dá viver.., mesmo pagando tributo ao tempo – o tempo que faz do velho livro «a expressão direta para sair das tiranias da comunicação» (Wolton, 1997). Assim, vale a pena convidá-los a ler EL.

*** ***

Foi há cerca de meio século: a vida social era então estruturada por um espaço e um tempo bastante precisos; um espaço definido por locais comuns, pessoais, profissionais e outros, como o café, o cinema e a livraria; um tempo definido pelas agendas da família e dos grupos sociais de trabalho, tertúlia e lazer; lugares e tempos que construíam comunidade e cidadania. Foi há cerca de meio século: a cultura era uma espécie de consciência crítica da humanidade, consciência que obrigava a olhar de frente o real e que impunha a figura do intelectual como um importante ator social do século XX. Querem ouvir?

Recuando 50 anos, ao tempo em que trabalhava nos petróleos da Total em Lourenço Marques, escreve EL: «Entretanto, ia lendo muito e vendo muito cinema», o que ajudava «a aprofundar ideias e emoções. E a ver mais claro. (...) Não tinha o tempo todo, porque, profissionalmente, estava bastante ocupado» (Lisboa, 2013: 246-247). Porém (acrescenta mais à frente), como «o trabalho não tinha grandes mistérios e os problemas já estavam mais do que identificados», podia desenvolver outros interesses como «a leitura, a escrita, as conferências que fazia, o ‘Cine-Clube’, o teatro, os cinemas, a descida às livrarias da Baixa, aos sábados de manhã, (...) os amigos, o convívio nas casas de uns e de outros, a praia... Era uma vida cheia, emocionante, rica, numa cidade de onde não apetecia sair» (ibidem: 269-270).

Esta referência ao «convívio» remete para a abertura do anterior sétimo capítulo destas memórias, onde EL recorda ter sido em 1959 que conheceu «alguns dos amigos que duraram até à morte deles» (como Rui Knopfli e Carlos Adrião Rodrigues) e as respetivas reuniões de sábado, nas suas casas ou nos cafés, «ruidosas, animadas e, umas vezes, estimulantes, outras vezes, apenas ruidosas e irritantes» (ibidem: 115, 118). Os amigos tendiam a aquecer quando falavam «de livros, de filmes, de discos, de quadros», embora tivessem «realmente em comum» algo de muito importante: os três amavam «uma arte livre de imposições ideológicas – uma arte que preservasse, acima de tudo, os valores da arte»; ou seja, uma arte «forte» que não vergasse a quaisquer «dogmas rígidos» de esquerda ou de direita (ibidem: 317-318, 348).

Alargados a outros amigos, tais debates foram transbordando para as revistas ou jornais onde (como «jornalistas amadores ou diletantes», portanto sujeitos a receber em troca «calúnias, desconfianças e patadas») passaram a colaborar e a poder evidenciar a sua opção pela liberdade. Opção que se traduziu, por exemplo, na Voz de Moçambique de 3 de janeiro de 1965, neste desafio corajoso: elegeram D. Sebastião Soares de Resende, então Bispo da Beira, como «figura do ano», apesar de saberem que «a PIDE odiava-o e o Estado Novo temia-o» (ibidem: 323, 326-327). Rapidamente começaram a ser considerados «perigosos comunistas». EL, que sempre se afirmara independente – «nunca compreendi como se podia detestar o Estado Novo e venerar o Estado Soviético» (ibidem: 181) –, esclarece quem ainda mantenha dúvidas: «éramos frontalmente contra o Estado Novo – que considerávamos, além do mais, intelectualmente pelintra e possidónio – mas jamais fomos aliciados pelas sereias do marxismo-leninismo, a que éramos figadalmente avessos»; todavia, em Moçambique, «qualquer interesse pela política, que não passasse pela União Nacional, era suspeito» e, sobretudo, «na questão quente das colónias, a divergência chamava-se ‘traição’» (ibidem: 294-295).

Começava então a ser óbvio «que as colónias portuguesas tinham os dias contados» e se «os sinais apareciam por todo o lado», com a eclosão da guerra «o clima, nas colónias, mudou bruscamente» (ibidem: 122, 129). Porém, «o mais doloroso disto tudo», recorda EL, seria reconhecer que «a independência de Moçambique era inevitável. Não que a não considerássemos, também, eticamente boa, mas não tínhamos dúvidas de que, quando viesse, a nossa vida iria mudar dramaticamente. O nosso mundo iria desabar, para que outros tivessem direito ao que até aí lhes fora negado» (ibidem: 295).

O último capítulo deste volume de memórias – mais de 50 páginas subordinadas ao título «Revolução» – é profundamente dilacerante. Começa assim: «O ano de 1974 ia ser cheio de emoções exageradas: exaltação, alegria, esperança, decepção, medo e desespero. Tudo num caldo de sabor, por vezes, angustiante» (ibidem: 425). Deste último capítulo – como aliás de todo o presente volume –, fica muita matéria à consideração de quem tenha o engenho e a arte de reconfigurar, com a marca pungente do vivido, algumas assépticas histórias de Portugal. Tal marca do vivido vem sempre elegantemente disfarçada pelo humor britânico de quem, como poucos, é capaz de relativizar o sofrido com a evocação certeira do divertido. «Conto apenas um punhado de histórias», desculpa-se o autor, apesar de saber quanto elas podem ser «representativas da epopeia de desastres e desmoronamentos que avassalava o país e atingia, com particular crueldade, a comunidade portuguesa» (ibidem: 472).

[Neste ponto, permito-me introduzir uma memória pessoal, do meu tempo de diretor editorial da Arcádia, quando preparava o livro de EL intitulado José Régio, a Obra e o Homem, lançado em 1976. Depois de nos termos carteado durante meses, encontrámo-nos finalmente na Arcádia. Na conversa, participaram mais duas pessoas: o Almeida Gonçalves, que veio a ser, durante 25 anos, o sábio editor da belíssima coleção de livros ilustrados dos CTT Correios de Portugal, alguns deles distinguidos com prémios de relevo; e uma professora universitária cujo nome esqueci e que, ao tempo, acreditava com entusiasmo militante no marxismo triunfante. Foi uma saborosa conversa, porque nela brilhou a cativante presença de EL. Mas foi uma conversa dolorosa, porque ele nos contou algumas das inquietantes histórias moçambicanas que reaparecem, agora, no último capítulo deste volume de memórias. Todavia, por cada desgraça narrada por EL, a tal professora contrapunha reticências, dúvidas e reservas, numa tentativa de desvalorizar aquele testemunho. O EL, diplomata, generoso e tolerante, não se ofendeu e até sorriu. Mas o pior (o pior...) aconteceu depois de ele ter saído, quando a dita militante rematou, com fervor intransigente: «Isto tudo até pode ser verdade, mas não posso concordar, para não alimentar a direita reacionária»...].

Após este parêntese das minhas próprias recordações, voltemos ao volume em apreço. Desse movimentado palco onde se sucederam, há quatro décadas, grandezas e misérias, desassossegos mortíferos e anedotas melancólicas, alarmes terríveis e apocalipses vários, desse palco da vida vemos agora descer, com serena dignidade, o autor destas memórias. Apesar de ter sido «obrigado a ficar só Português» por força de uma «desumana lei das nacionalidades» (ibidem: 464), imposta então em Moçambique pela FRELIMO, vemos ainda hoje – numa entrevista à televisão em Agosto deste ano de 2013 – EL afirmar com a lucidez de sempre: «Eu sou muito europeu e sou também muito africano. Não me sinto desenraizado. Sinto-me com múltiplas raízes» (Lisboa, 2013b).

Aberta esta singular proposta de leitura, aqui, perante vocês, geração mais nova que estive a tentar aliciar, reconheço diferenças e fico com vontade de vos colocar questões. Ao contrário do que sucedia, há quase meio século, o espaço e o tempo da vossa vida social parecem, hoje, demasiado governados pelas modernas redes de comunicação global. Pergunto: vocês, sentem-se realmente felizes? E também parece que o entretenimento e a diversão andam a querer substituir a educação e a cultura; e que o sensacionalismo e a frivolidade andam a querer apresentar-se como suficientes para manter em cena o grande teatro do mundo civilizado. Pergunto: vocês, geração mais nova, vão mesmo deixar?

*** ***

Três notas finais a encerrar esta apresentação. A primeira para agradecer, ao autor destas memórias, a generosidade com que anda a partilhar a sua vida com os leitores, os atuais e os futuros (os tais que eu tentei aqui aliciar...). Ao agradecimento, talvez o EL contraponha o incitamento recebido de José Régio: «Quando se resolve, então, a organizar e a publicar livros que tem obrigação de nos dar? (Obrigação perante si próprio, perante os Seus, perante os amigos... e perante a cultura nacional)», escrevia o autor de Há mais mundos, insistindo para que EL assumisse a sua «função de escritor» (Lisboa, 2013: 346, 353). Como é sabido, assumiu mesmo.

A segunda nota destina-se a explicar por que motivo chamei ao presente texto «Confidências Africanas de um Rebelde». Se roubei parte do título à conhecida novela de Roger Martin du Gard, foi para convocar um dos escritores de cabeceira de EL – cujas obras completas a Antonieta lhe ofereceu quando casaram (Lisboa, 2013: 99) – e também para recordar que a Confidence Africaine abre com uma data, «Maio 1930», a do nascimento do próprio EL... Por outro lado, se chamei «rebelde» ao nosso autor, foi para sublinhar como ele sempre recusou as imposições ideológicas à direita e à esquerda, sempre teve a honestidade e a coragem de fazer uso da razão, talvez a exemplo de Henry de Montherlant, seu «professor de independência e de altivez» (Lisboa, 1996: 218), mas também na senda de Bertrand Russel, cuja inteligente e irónica autobiografia EL sempre colocou «num lugar à parte» (ibidem: 245). Por tudo isto, sou levado a considerar, como um dos episódios-charneira do presente terceiro volume de memórias, o momento em que um director francês da Total lhe diz cara a cara: «Lisboa, V. está a fazer um óptimo lugar (...). Mas V. é um rebelde» (Lisboa, 2013: 301). A competência e a rebeldia eram (e são) coisas muito raras e... perigosas!


A terceira e última nota é para referir que, tendo eu iniciado esta nota de leitura com o «pode-se dar um jeito» do Pegado, quero terminá-la com uma segunda história do mesmo jaez. A um outro mestiço do interior, que nunca vira o grande oceano, alguém foi-lho mostrar. Mas só conseguiu arrancar-lhe esta insólita, porém sóbria, exclamação: «Ah, o mar! É muito distinto...». Também eu, convicto de ter estado aqui a tentar apresentar uma importante obra de um poderoso escritor – uma obra que representa um verdadeiro insulto à vulgaridade reinante nos atuais escaparates livreiros –, também eu vou remeter-me ao prudente silêncio que a sobriedade aconselha. Mas em vez de uma apreciação insólita – do género: «Ah, este livro! Um oceano de escrita! Muito distinto...» –, proponho-me levar até ao fim o título geral das presentes memórias. O autor chamou-lhes Acta Est Fabula, como diziam os romanos no fecho de um espetáculo de teatro. E eu vou acrescentar-lhe o competente imperativo de encerramento: se o dramaturgo afirma que a sua peça está (por agora) representada, então há que aplaudir Eugénio Lisboa. Portanto: plaudite.

Lisboa, Centro Nacional de Cultura, 24 de outubro de 2013


*** ***

BIBLIOGRAFIA CITADA

BECKER, Howard S. (1982), Art Worlds, Berkeley, University of California Press.
GOFFMAN, Erving (1993[1959]), A Apresentação do Eu na Vida de Todos os Dias, Lisboa, Relógio d’Água, tradução de Miguel Serras Pereira.
HORIA, Vintila (1978), Introdução à Literatura do Século XX. Ensaio de Epistemologia Literária, Lisboa, Arcádia, tradução de João Maia.
LISBOA, Eugénio (1996 [1973,1975]), Crónica dos Anos da Peste, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda.
LISBOA, Eugénio (1998), Entrevista, Boca do Inferno 3, Câmara Municipal de Cascais.
LISBOA, Eugénio (2011), «Resposta ao Questionário de Proust» e «Entrevista», apud Martins e Almeida, 425 e 415.
LISBOA, Eugénio (2013), Acta Est Fabula. Memórias III. Lourenço Marques Revisited. 1955-1976, Guimarães, Opera Omnia.
LISBOA, Eugénio (2013b), Entrevista ao programa «Mar de Letras» (RTP, Agosto 26; RTP África, Agosto 31),
MARTIN DU GARD, Roger (1931), Confidence Africaine, Paris, NRF-Gallimard
MARTINS, Jorge Manuel (2007), «Livros: Difícil é Vendê-los», Ofícios do Livro, Universidade de Aveiro.
MARTINS, Otília Pires / ALMEIDA, Onésimo Teotónio de (org.) (2011), Eugénio Lisboa: Vário, Intrépido e Fecundo: Uma Homenagem, Guimarães, Opera Omnia.
SANTOS, Maria de Lourdes Lima dos (coord.) (2007), A Leitura em Portugal, Lisboa, Minstério da Educação (GEPE Gabinete de Estaística e Planeamento da Educação).

WOLTON, Dominique (1997), Penser la Communication, Paris, Flammarion.

*** ***

Jorge Manuel Martins, natural de Lisboa, doutorado em Sociologia da Comunicação e da Cultura pelo ISCTE, membro da Academia Portuguesa da História, professor universitário e consultor de empresas, foi membro da Comissão Nacional da UNESCO e presidente do Instituto Português do Livro e das Bibliotecas. É autor de Marketing do Livro (1999), Patrimónios Mundiais com Selo Português (2003), Profissões do Livro (2005) e de vários volumes da série anual Portugal em Selos.