Mostrar mensagens com a etiqueta eventos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta eventos. Mostrar todas as mensagens

31 dezembro 2016

MÚSICA no DIANA-BAR



Jorge M. Martins1

Em Setembro de 2016, a Póvoa de Varzim convidou-me a escrever sobre Eugénio Lisboa, para a revista Correntes d’Escritas 2017. Apressei-me a responder afirmativamente, invocando três motivos: «porque considero exemplar o dinamismo cultural da Câmara Municipal da Póvoa; porque considero Eugénio Lisboa um dos maiores ensaístas portugueses vivos; porque Eugénio Lisboa é um dos meus melhores amigos». Eis o meu testemunho, em Dezembro de 2016.

VOZ do MAR

Eugénio Lisboa encontrava-se de novo na «metrópole», nesse começo de 1968. Antes de regressar a Moçambique, preparava-se para visitar José Régio, já aposentado e a viver na sua casa de Vila do Conde. O escritor fornecera-lhe as coordenadas, em carta de 19 de Fevereiro: «De manhã, depois das dez horas, ou estou em casa (...) ou no Diana-Bar da Póvoa, onde nos encontrámos da última vez. No Diana-Bar, de manhã, estou em baixo, no primeiro piso. À tarde, geralmente no segundo piso, que a gente chama a Galeria. Dessa última vez, foi aí que nos encontrámos».

O anterior encontro tivera lugar no Verão de 1963 e incluíra uma visita conjunta à Casa de Camilo, em S. Miguel de Seide. Eugénio Lisboa há-de recordar tais momentos, em carta de 4 de Agosto de 1964: «Tenho imensas saudades dos dois escassos dias que passei em Vila do Conde/Póvoa, o ano passado». E há-de celebrar, anos mais tarde, o apaixonado camilianismo dos dois visitantes, num luminoso ensaio a que deu o saboroso e evocativo título de «‘Coisas Nossas’. José Régio e Camilo: a love for all seasons», ensaio hoje disponível no seu Ler Régio.

No Diana-Bar, edifício modernista do final dos anos trinta, plantado no areal da Póvoa de Varzim e virado para a antiga Praia de Banhos, funciona desde 2002 um dos polos daquele modelar equipamento cultural que é a Biblioteca Municipal Rocha Peixoto onde, em recente comemoração dos seus 25 anos, tive oportunidade de tratar o tema «Livros: difícil é lê-los».

Todavia, durante seis décadas, o velho e belo Diana-Bar foi um lugar selecto de encontros estivais e de tertúlias intelectuais, onde José Régio escreveu muitas das suas páginas, como ainda hoje é recordado no próprio local.

Não sei se, no antigo Diana-Bar, havia música ao vivo, mas sei que Régio sempre viveu embalado pelos fraseados melódicos de um muito pessoal repertório. «Para Régio, a poesia é música, canção, são ‘rimas e ritmos’ e o poeta é o trovador que mede pelos dedos subtis segredos», escreveu Ruy Belo a propósito do primeiro póstumo, Música Ligeira. Anos antes, a «minha Amália Rodrigues» (como lhe chamava Régio desde 1955) tinha gravado com Alain Oulman o Fado Português, primeira de múltiplas versões musicais de poemas regianos, pela voz de vários intérpretes. Será que o poeta ambicionava tanto ser cantado quanto o dramaturgo ver representado o seu teatro?

A sua obra poética, para citar apenas esta, é fértil em sugestões musicais, seja nos títulos dos livros – Fado (1941), Cântico Suspenso (1968), Música Ligeira (1970) –, seja nos títulos de poemas, como os seguintes: «Cântico Negro» (Poemas de Deus e do Diabo); «Cântico» (Biografia); «Canção de Guerra», «Realejo» (As Encruzilhadas de Deus); «Fado do Silêncio», «Fado de Amor», «Balada de Coimbra», «Fado dos Pobres», «Toada de Portalegre», «Fado Alentejano», «Fado-Canção» (Fado); «Melodia», «Canção», «Ode», «Pequena Sinfonia» e «Canção da Tarde» cujo refrão «Canta, canção!» é oito vezes repetido (Mas Deus é Grande); «Canção Cruel», «Cancioneiro de João Bensaúde» (Filho do Homem); «Canção dos Dias Contados», «Cantar de Amigo» (Música Ligeira); «Momento Musical» (Colheita da Tarde).

No próprio corpo de não poucos poemas, é também frequente o recurso às formas de inspiração melódica. Mais dois exemplos. O longo poema
«Levitação» (Mas Deus é Grande) termina assim: «As músicas que então me embalam triplo ser, / Como as tentar captar, como as dizer? / Se alguém as já ouviu, ou é capaz de ouvi-las, / Compreenderá que é vão o intento de exprimi-las». E como derradeiro eco desse «vão» alarme, o livro póstumo Colheita da Tarde acolhe o poema «Enfim», onde pode ler-se: «Há tanto lhes canto / Para ser ouvido! / E ao fim desse tanto, / Sou desconhecido».

Em 5 de Fevereiro de 1969 (a dez meses do fim), Régio escreve mais uma carta a Eugénio Lisboa, na qual informa ter em mãos o sexto volume «da interminável Casa» e, sobretudo, a Confissão dum Homem Religioso que lhe está a sair «com uma facilidade espantosa». Tal missiva começa assim: «Encontro-me no bar da Póvoa em frente ao mar, que é agora o meu gabinete matinal de trabalho, está um dia de frio mas com sol».

Régio gostava de escrever à beira-mar. Talvez para honrar o de António Nobre – «Georges! Anda ver meu país de marinheiros, / O meu país das naus, de esquadras e de frotas! / Oh, as lanchas dos poveiros / A saírem a barra, entre ondas e gaivotas!» –, seu livro-paixão da adolescência, segundo revelou na Confissão; mas certamente para se reencontrar, como confidenciou na décima segunda oitava do longo poema «Sarça Ardente» de As Encruzilhadas de Deus: «Na voz do mar só me ouço a mim, que choro».

MOZART e RÉGIO

Eugénio Lisboa não terá escrito nenhuma das suas páginas no Diana-Bar. Porém, mesmo dispensando a poveira «voz do mar», a sua prosa – simultaneamente ática e fulgurante, nítida e encantatória, rigorosa e desenfadada – lembra sempre a fluência pianística de uma envolvente música ao vivo.

Por exemplo, na sua incansável atenção à obra de José Régio ao longo de seis décadas – desde a primeira monografia escrita em 1955 (publicada no Porto dois anos depois) até ao recente texto sobre os 80 anos de As Encruzilhadas de Deus (JL, 12-10-2016) –, é tão constante o recurso ao expressionismo de recorte musical que o crítico Eugénio Lisboa quase se irmana, ainda mais, do criador de Vila do Conde.

A monografia dos anos 50 já propõe, para um exame crítico da obra regiana, que se proceda ao «estudo apurado e minucioso da sua técnica, do seu ritmo», com vista à «interpretação das suas dissonâncias»; que se preste «atenção ao uso metálico de certas formas de particípios passados»; que se verifique se os «aparentes deslizes musicais não serão intencionais, se não estarão em obediência íntima ao conteúdo por tal forma musicado» (itálicos meus). Ainda nessa década, em carta de 29 de Julho de 1957, Lisboa diz a Régio: «O que há de música de câmara (talvez o ponto mais depurado e transcendente atingido pela sua Poesia) em tudo quanto tem escrito – poesia ou prosa ou drama – tem passado um pouco na sombra, ofuscado talvez pelo que no resto há de mais brilhante ou espectacular».

Por seu lado, no recente artigo de 2016, as sugestões musicais de Eugénio Lisboa parecem atingir o clímax. As Encruzilhadas são lidas como «obra de toada dramática e eloquente, apaixonada e vibrante, em registo de música sinfónica de orquestração ruidosa» e, ainda, como «música de grande formato wagneriano», em contraste com a «contida e austera música de câmara» de Mas Deus é Grande. E à poesia dita «depurada», praticada pelos actuais cultores dessa escola de pensamento, chama «música de raros decibéis». Ora saudando «o brilho orquestral de alguma poesia de Régio», ora admitindo no mesmo palco «tanto os pletóricos como os mais esganiçados» pois nele «há lugar para todos», eis um inspirado Eugénio Lisboa a revelar-se tanto engenheiro-de-letras como melómano.

Sabemos agora, pelo volume II (1947-1955) das memórias, que a música depressa se tornou «indispensável» na formação integral de quem já sabia articular, com idêntico entusiasmo, a engenharia e a literatura, o cinema e o teatro. Eugénio Lisboa conta que «ouvia música sinfónica e ópera» enquanto estudava matemática ou química; que seguia «os minuciosos folhetins de História da Música, da autoria de Luís de Freitas Branco»; que frequentava «concertos ao vivo» e que, um dia, teve «uma experiência desagradável»: no São Carlos, em vez da Isolda «elegante, espiritual e bela» de Wagner, saiu-lhe «um monstro antediluviano» que o fez abandonar o teatro e regressar a casa para «ouvir o resto da ópera pela telefonia».

Ainda nas memórias, agora no volume III (1955-1976), o do regresso a Moçambique, são recordados amigos melómanos, como o poeta Rui Knopfli (tão apaixonado por jazz que terá sido ele a pegar o «vício» a Eugénio Lisboa), Fernando Bettencourt (o da «história pícara» relativa a Sibelius e Bruckner), o poeta Alberto Lacerda e o médico Henrique Macedo, entre outros. No mesmo volume, surge este curioso registo, a propósito de algumas «perdas impressivas» de 1971: «Em 6 de Julho, partia, para verdes pastagens, esse monstro da música moderna americana, Louis Armstrong, pondo fim à primeira grande era do jazz (a música que Mozart teria inventado se tivesse vivido no século XX)».

Mozart, portanto. E com ele chegamos às memórias de Londres, no volume IV (1976-1995). Edith Philips está a entrevistar Eugénio Lisboa, para a rádio, e pergunta-lhe: «Quais são, para si, os três maiores compositores?». Eis a imediata resposta: «Mozart, Mozart, Mozart». E segue-se logo a explicação: «A verdade é que o grande e genial rufia me serve para todas as estações e para qualquer estado de espírito, desde o mais depressivo ao mais eufórico». Páginas adiante, lê-se esta nota de 20.05.89: «Hoje, vai ser uma noite de trabalho, até às tantas. Talvez um pouco de música ajude». Para tal melómano, Mozart, com certeza!

O recurso a uma tríplice e divertida repetição, como modo corajoso de sublinhar uma convicção, vai ressurgir num texto de 1996, disponível no Portugaliae Monumenta Frivola. Tal texto não fala de música, mas de literatura e intitula-se, precisamente, «Régio, Régio, Régio». Na sua muito especial «lista de afectos duradouros», Mozart, o «genial rufia», faz companhia ao escritor José Régio, cuja obra «aprisionou» Eugénio Lisboa para sempre, «naquela ‘província’ fechada e rica de sugestões, nuances, subtilezas e brutalidades». Certamente porque um «grande escritor é o que dá voz ao que está no mais secreto de nós e não sabemos exprimir».

MAGNUM OPUS

Eugénio Lisboa sempre gostou de utilizar, nos seus escritos, expressões importadas da literatura clássica. Tal hábito tem raízes no liceu de Lourenço Marques (onde foi tão bom aluno em Letras como em Ciências), nas leituras juvenis (onde não faltaram Ésquilo, Sófocles e até o Quo Vadis) e na decisiva descoberta de Montherlant («grande romano do nosso tempo» e seu mestre de independência). Tudo isso vem sedutoramente recordado nos cinco volumes de memórias, aos quais pôs o título comum, obviamente em latim, de Acta Est Fabula.

Como é sabido, tal expressão rematava as representações teatrais e pedia aplausos: plaudite. Mas, dispensando este memorialista as palmas, os seus leitores aproveitam para lhe pedir que não tenha pressa em abandonar o grande teatro do mundo e que, apesar do título adoptado, prossiga. Escrever é lutar contra a morte, reconfigurando o ofício de Orfeu. Aliás, em momento bem doloroso, ele próprio lembrou que «escrever é preciso» (JL, 22-6-2016), já que «a alegria de escrever é o antídoto eficaz contra a nossa impossibilidade (e angústia) de viver».

Ora, tem sido também com uma expressão latina – magnum opus – que Eugénio Lisboa vem qualificando o seu segundo grande estudo de 1976: José Régio, a Obra e o Homem. Fê-lo, recentemente, no quarto tomo das memórias e também no prólogo ao volume da sua correspondência com Régio, onde escreveu: «Era este o livro que eu gostaria de ter oferecido, em vida sua, ao escritor que tanto deslumbrara e iluminara os meus anos adolescentes. E que não parei de ler e estudar, pela vida fora».

Entre 1955 e 2016, Eugénio Lisboa publicou muitas outras obras, sobre diferentes temas e autores. Mas, por entre a sua vasta e nunca monótona obra de interpretação regiana, tenho em particular apreço dois pequenos mas admiráveis volumes: José Régio, uma Literatura Viva (escrito em Estocolmo, editado em 1978 e considerado pelos distraídos como «resumo» da monografia de 1976) e ainda O Essencial sobre José Régio (INCM, 2001). Lêem-se de um fôlego, mas são ponto de chegada de duro trabalho de investigação, escrita e ensino.

Apesar do muito que tem trazido a público, o autor insiste em chamar magnum opus à monografia regiana que lhe editei, precisamente, há 40 anos. De facto, o livro foi publicado em Lisboa, em Novembro de 1976, na defunta Arcádia, onde eu era director editorial. E como os livros fazem amigos, nós e as nossas famílias ficámos amigos para sempre. Mais tarde, o autor actualizou-o e acrescentou-lhe um prefácio, no qual contou a pré- história da primeira edição, em termos tão generosos para comigo que me deixaram confundido.

Porém, não sei se concordo inteiramente com o autor, quando chama magnum opus regiano àquele livro de 1976. Para mim, é o conjunto da sua obra, fecunda e vária, que o ergue à nossa admiração. Aliás, mesmo quando regressa ao escritor de Vila do Conde e Portalegre, o infatigável Eugénio Lisboa nunca se repete, como se pode verificar, por exemplo, nas suas múltiplas intervenções do centenário e nos seus textos de apoio aos volumes do Círculo de Leitores e da INCM.

Eugénio Lisboa qualifica a monografia de 1976, no tal prefácio da segunda edição, como «uma inequívoca obra de atenção», aquela prolongada e obstinada atenção que representa «a maior homenagem que um estudioso pode prestar ao autor estudado». Empenhado admirador da obra de Régio, Eugénio Lisboa é reconhecido como o seu mais lúcido analista. Mas eu talvez preferisse dizer: como o seu mais inspirado intérprete musical.

Magnum opus regiano, o livro de 1976? Por muito que tal cognome lisonjeasse o seu editor de então, concordar com o autor seria como tentar eleger a melhor das várias, belíssimas, mas sempre diferentes interpretações das sinfonias de Tchaikovsky, sob a batuta criativa e empolgante do maestro Valery Gergiev, à frente da Mariinsky Orchestra.

Lisboa, 31-12-2016, JMM




1 - Jorge M. Martins, natural de Lisboa, doutorado em Sociologia da Comunicação e da Cultura pelo ISCTE, membro da Academia Portuguesa da História, foi editor, professor universitário, consultor de empresas, membro da Comissão Nacional da UNESCO e presidente do Instituto Português do Livro e das Bibliotecas. Algumas obras: Marketing do Livro (1999), Patrimónios Mundiais com Selo Português (2003), Profissões do Livro (2005) e vários volumes da série anual Portugal em Selos.

18 abril 2016

Apresentação do livro 'José Régio: Correspondência com seu irmão Antonino', organizada por Filipe Delfim Santos

Casa Museu José Régio, 18 de abril de 2016, 18.00H
Com a presença de Filipe Delfim Santos e de Manuela Neves Pereira



O Livro

Devo começar por informar que, neste livro, presentifica-se a correspondência a Antonino do homem, José Maria dos Reis Pereira, e não do escritor, José Régio. Embora nela encontremos traços de estilo inequivocamente regianos (de escrita, de linguagem, de pensamento) pois que inequivocamente o homem serve ao escritor, não mesclemos o primeiro com o segundo. Esta correspondência deixa, assim, conjeturar o homem, José Maria dos Reis Pereira, numa relação, que pessoalmente considero muito íntima, privada: a fraternal, em todos os ângulos afetivos, emocionais e, neste caso, e principalmente, legais (lei/legado) que tal acarreta.

De facto, neste volume, temos acesso a uma correspondência persistente (note-se que estão aqui recolhidas 65 missivas que, desde a terceira carta aqui integrada, balizam temporalmente o começo em 1957 e o final em 1965), contrastando com a correspondência anterior, que se extraviou, e que se adivinha ter sido ocasional (de finais dos anos 20 a finais dos anos 50), da qual apenas aqui constam as duas primeiras epístolas apresentadas (uma de 1929, outra de 1949).

Aludindo sucintamente à história de vida de Antonino, este tinha emigrado para o Brasil ainda muito jovem. Lá, e conforme F. Delfim Santos refere nesta obra, acabara «confinado à mediania de uma existência de empregado de escritório, probo e bem-comportado» (p. 16). Com efeito, Antonino nunca regressaria em vida a Portugal, sendo que o próprio José Maria dos Reis Pereira, naquela que era a sua consciência de família e de união da mesma, consegue que, anos depois do seu falecimento, os seus restos mortais sejam trazidos para Portugal e integrem o jazido da família em Vila do Conde.

A corrente missiva que aqui se foca, entre José Maria dos Reis Pereira (o mais velho de seus irmãos Júlio, Antonino, Ana, Apolinário e João Maria, sendo que antes dele ainda nascera uma irmã que falecera em criança) e Antonino, trata predominantemente de um aspeto que preenche os contornos de uma relação fraternal, numa vertente legal: o das partilhas da herança da família, legada por falecimento de seu pai. De facto, esta correspondência sobressai no tratamento deste tema, parecendo anunciar uma certa frieza ou materialismo por parte dos irmãos; todavia há que contemplar o tratamento de etapas burocráticas generosas (em quantidade e qualidade) que os processos de herança e partilhas acarretam, associando-se estes à distância geográfica que apartava (e muito) os dois irmãos e que muito acabava por intrincar (aliás, percebe-se pela correspondência que o mesmo se passara com o seu outro irmão, Apolinário, pois que este vivia então em Angola). A acrescentar, o acervo de correspondência nesta temática também se justifica na descrição minuciosa e transparente das partilhas, de modo a manter uma relação fraternal de confiança e cumplicidade. Com efeito, o próprio José Maria dos Reis Pereira refere na carta 48: «Felizmente, tudo tem vindo correndo bem, sem essas questões que tanto me chocam nas famílias que se zangam por causa de interesses em luta» (pp. 215-216).

Ainda, nesta correspondência, além da exploração deste tema, outros são abordados. Assim, esparsa e pontualmente são refletidos aspetos da vida do escritor (as suas obras, algumas das suas personagens e narrativas, a sua intelectualidade, os seus prémios, a sua notoriedade: de facto, Antonino nunca deixa de manifestar grande admiração e orgulho fraternal pelo percurso intelectual do seu irmão); a vida social, económica e parcamente intelectual (e até íntima…) de Antonino no Brasil; o relato de pequenas vivências em família, por parte de José, no Natal, principalmente. Outro tema, aquele que mais se destaca, a seguir ao que trespassa maioritariamente toda a correspondência, é o da pesca. Antonino fizera dela um hobbie e muitas vezes fazia encomendas relacionadas com este desporto a seu irmão José.

Apresentação sumária por partes

Não me irei, entretanto alongar relativamente à Correspondência visada e temática nela existente. De facto, este livro é muito mais do que a sua coleção.

Assim, numa apresentação sumária desta obra, nela encontramos: um estudo introdutório, da autoria de Filipe Delfim Santos. Nele observamos, não só um enquadramento temporal, pessoal e familiar destes dois irmãos; como um aprofundamento descritivo de Antonino como «um irmão à parte» (Conforme aparece retratado nas Páginas do Diário Íntimo, Régio, 2000: 366) que «Tinha um feitio muito especial…, coisa aliás mais ou menos extensiva a todos os irmãos» (Régio, Carta a Flávio Gonçalves, 05.11.1965), e cuja personalidade é equiparada, por Delfim Santos, a uma das personagens de Histórias de Mulheres, 'Rosa brava', caracterizada pelo seu feitio indomesticável e, por vezes, diabólico. O interesse e a admiração pela obra literária do irmão, associados à pretensão crítica e intelectual, ainda que pouco desenvolvida, de Antonino, é outra das abordagens deste estudioso. Ainda, nesta parte se justifica uma das últimas contribuições deste livro: o exercício literário da adaptação do conto 'Uma Anedota de Gaiatos' (da autoria de José Régio), através da devolução dos onomásticos ocultados das personagens ali existentes, sendo que o 'José' é aqui a personagem principal e 'Antonino', a secundária. De facto, esta é também uma forma de melhor conhecermos estes dois irmãos, na sua relação fraternal.

A intercalar este estudo introdutório e a adaptação deste conto encontramos não só a correspondência entre estes dois irmãos, como excertos de Páginas do Diário Íntimo Confissão de um Homem Religioso de José (o Epílogo) e duas missivas do mesmo autor (uma para Flávio Gonçalves; outra para Constantino Maia) que também observam a descrição, não só de Antonino, mas da relação fraternal que com ele tinha José Maria dos Reis Pereira.

Mas não ficamos por aqui: a finalizar este livro, um pequeno álbum fotográfico de família coroado pela tábua cronológica dos irmãos Reis Pereira. Enfim, uma obra completa que não só transcreve, em parte, como deixa adivinhar, a relação deste dois irmãos tão diferentes, mas tão iguais no berço do seu amor fraternal.


Prof. Doutora Maria José Marcelino Madeira D'Ascenção

21 março 2016

A poesia sai à rua numa homenagem ao poeta José Régio - Portalegre, 21.03.2016


Lusa, 08 Mar, 2016, 10:14 | Portalegre evoca José Régio no Dia Mundial da Poesia

O poeta José Régio (19011960) vai ser homenageado em Portalegre, numa iniciativa da Fundação Inatel, que se realiza Dia Mundial da Poesia, a 21 de março, divulgou hoje esta instituição.

A praça da República da cidade altoalentejana e o Centro de Artes e Espetáculos são os cenários para um "espetáculo de homenagem e celebração da vida e obra de Régio, no qual participam vários grupos culturais através da poesia, teatro, música, dança e cinema, numa viagem com encenação a cargo de Hugo Sovelas", segundo fonte da Fundação.

No dia 21, a partir das 16:30, na Praça da República e no Café Concerto do Centro de Artes e Espetáculo, realizam-se "diversas atividades, nas quais a população é desafiada a traduzir a poesia e o colecionismo, duas paixões incontestáveis da personalidade de Régio, através da pintura, desenho e escrita, culminado numa instalação que será exibida no final do espetáculo", segundo a mesma fonte.

A partir das 17:00 realizam-se visitas guiadas à Casa Museu José Régio, que "darão a conhecer o gosto do poeta por antiguidades e pelo colecionismo, num percurso dirigido em que o ator Paulo Bórgia, que dará corpo ao homenageado, revelará uma faceta mais íntima do artista" e o facto de esse gosto, segundo o próprio autor, ter raízes na influência de seu avô.

Às 19:00, no grande auditório do Centro de Artes e Espetáculo, o ator Rui Mendes procederá à leitura do Manifesto da Poesia intitulado "A palavra feita de palavras", um original do escritor José Luís Peixoto.

O espetáculo conta ainda com as participações do Coro Infantil dos Assentos, do grupo de cante alentejano "Os Lagóias" do Orfeão de Portalegre, dos grupos Momentos da Poesia, Amigos da Poesia e Silvina Candeias, de Vocalóide Teatro vocal e coreográfico, e da fadista Alexandra Martins, acompanhada pelos músicos José Sousa, na guitarra portuguesa, e José Geadas, na viola.

Refira-se que José Régio, autor de "Fado português", que Amália Rodrigues gravou, "Cântigo negro" e "Toada de Portalegre", entre outros poemas, foi professor no Liceu Mouzinho da Silveira, na cidade de Portalegre, que preserva a sua casa como museu, incluindo coleções de escultura, pintura, faiança, mobiliário, metais e têxteis, destacando-se a dos Cristos.

A casa era uma pensão, onde Régio alugou um quarto, mas, ao longo dos 34 anos em que viveu na cidade, foi adquirindo outros quartos, até ficar com a casa por completo. Em 1965, Régio vendeu a sua coleção à Câmara Municipal com a condição de esta adquirir a casa, a restaurar e transformar em Museu, ficando o autor de "Vestido cor de fogo" com o usufruto até à sua morte, que ocorreu em Vila do Conde, sua terra natal, a 22 de dezembro de 1969. A Casa Museu abriu portas a 23 de maio de 1971.

Esta iniciativa da Fundação "enquadra-se na missão cultural da INATEL, enquanto consultora da Unesco para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial e pretende evocar a importância do património literário português".

O fadista Ricardo Ribeiro adiantou à Lusa, que está a preparar a composição musical para "Toada de Portalegre", um poema de José Régio, dedicado à cidade, que deverá apresentar no final deste ano, no Teatro Municipal S. Luiz, em Lisboa.

22 setembro 2015

Exposição "Arte e fraternidade: artistas e cidades irmanadas"



Régio durante as filmagens de As pinturas do meu irmão Julio, obra de Manoel de Oliveira.

A Câmara Municipal de Vila do Conde associada à sua congénere de Portalegre prestam homenagem a José Régio, nos 114 anos do seu nascimento, mantendo viva a memória de um dos maiores vultos das letras de Portugal. Escritor que é património comum de ambos os municípios e através do qual se gerou a geminação que os une.

A exposição "Arte e Fraternidade Artistas e Cidades irmanadas" permite-nos revisitar algumas das obras artísticas e literárias mais relevantes e significativas da autoria de Régio e Julio e, simultaneamente, dar a conhecer as criações, no campo da arte e da literatura, que supomos serem menos conhecidas do grande público, de seus irmãos, Apolinário e João Maria.

Vila do Conde espraiada entre pinhais rio e mar e Portalegre cidade do alto Alentejo juntam-se num hino de louvor ao poeta, tal como ele o fez cantando, como ninguém, as suas cidades de eleição.

Teatro Municipal de Vila do Conde
Inauguração no dia 26 de setembro às 21h30
Terça a sexta: 10h30/12h30 e 14h00/19h00
Sábado: 10h30/12h30 e 14h00/19h00 e 20h30/23h30 (exceto em dias de espetáculo)
Domingo: 15h00/19h00 e 21h00/23h30 (exceto em dias de espetáculo)

04 setembro 2015

Régio em Abrantes

“Trovas & Canções, actores, poetas e cantores” é o nome do espetáculo que vai subir ao palco do Cineteatro S. Pedro, em Abrantes, na noite de 11 de setembro de 2015, a partir das 21h30.

Um espetáculo inédito que reúne três gerações de atores e outros profissionais em redor da figura do actor Ruy de Carvalho que estará em palco com o filho e o neto, João de Carvalho e Henrique de Carvalho. Em palco estará também a fadista e actriz Ana Marta, prémio Amália revelação 2011, com Diogo Tavares e Ricardo Gama.

“Trovas & Canções, actores, poetas e cantores” mistura teatro, poesia e canções num espetáculo onde os atores interpretam poetas portugueses, tais como Camões, Ary dos Santos, Pedro Homem de Mello, Zeca Afondo, Florbela Espanca, José Régio, Gil Vicente, entre outros.

Os bilhetes custam dez euros e estão à venda no Welcome Center (loja de turismo) no Largo 1º de Maio, através do e-mail: turismo@cm-abrantes.pt ou do contacto: 241 330 100.


06 julho 2015

Cinema “made in” Vila do Conde



Há alguns anos que à volta do Festival Curtas de Vila do Conde se estabeleceu a possibilidade de se produzirem, também, alguns filmes. Da colheita deste ano são hoje exibidos, em estreia, “A Glória de Fazer Cinema em Portugal”, de Manuel Mozos, que aborda a relação do escritor vila-condense José Régio com a sétima arte, e "Vila do Conde Espraiada", que aproveita este famoso verso, também de Régio, para uma viagem por imagens de arquivo em forma de carta-cassete de amor.

Dia 6 de julho de 2015 - para ver às 22h30, no Teatro Municipal.

Bilhetes a 3,50€.


http://lazer.publico.pt/noticias/350585_sugestoes-do-dia-6-de-julho#

12 junho 2015

Inaugurados o Hotel José Régio e a Cafetaria José Régio em Portalegre

Inaugurou hoje o Hotel José Régio, juntamente com a Cafetaria José Régio, no Largo do Rossio, em Portalegre.







Hotel: unidade hoteleira de 4 estrelas.
Cafetaria: página da Cafetaria, no antigo Café Facha.

Aspeto da entrada:

Sala de Jantar:

Corredor:

Quartos:



CONTACTOS
Largo António José Lourinho Nº 1, 3 e 5
7300-088 Portalegre

Telefone: (+351) 245 009 190
Fax: (+351) 245 309 113
E-mail: info@hoteljoseregio.com

24 maio 2015

Inauguração da exposição dos quatro irmãos Reis Pereira


Decorre até 10 de setembro a exposição dos desenhos, aguarelas e pinturas de José Régio e dos seus irmãos Julio, Apolinário e João Maria, na galeria de S. Sebastião, em Portalegre.


26 março 2015

Henrique Villaret escreve biografia de João Villaret destacando a correspondência com José Régio


Henrique Villaret escreve biografia de João Villaret


João Villaret - Duas mãos que abertas deram tudo


Esta fotobiografia escrita por Henrique Villaret, foi apresentada no dia 27 de Março no Salão Nobre do Teatro Nacional D. Maria II.

Resultado de um longo trabalho de investigação, recolha e organização, esta obra comemorativa do centenário do nascimento de João Villaret (1913-1961) inclui inéditos da vida artística daquele a quem em Portugal chamavam «Génio Dramático» e no Brasil «Milagre Humano».

Com capa dura, tem 520 páginas. PORÉM, LAMENTA-SE A AUSÊNCIA DO ÍNDICE ONOMÁSTICO, INDISPENSÁVEL NUMA OBRA DESTE TIPO.

Ao longo do livro, é de destacar a correspondência com António Botto, Miguel Torga, Palmira Bastos, João Gaspar Simões, Alfredo Cortez, José Régio...

LER MAIS AQUI
E EM: 'CORRESPONDÊNCIA' 2015.

19 fevereiro 2015

Textos de José Régio em espetáculo de São Paulo

“Puzzle (D)” entrelaça textos variados

“Puzzle” nasceu em 2013 na Feira do Livro de Frankfurt e traz crítica ao Brasil.




O cenário, assinado por Daniela Thomas e Felipe Tassara, resume-se a camadas de papel em branco, que, ao longo do espetáculo, ganham cores e letras. Não existe história, pelo menos história linear, com princípio, meio e fim. “Puzzle (D)”, espetáculo de Felipe Hirsch que estreou na última semana no Sesc Vila Mariana, é uma “jam” literária.


“Tem muito improviso. Construímos com a Sutil (Sutil Companhia de Teatro) uma linguagem forte. E agora encontrei outra linguagem”, comenta Hirsch, sentado na plateia do teatro, enquanto o cenário em branco vai sendo construído. “Queria fazer algo importante. Não um arrasa quarteirão. Mas no sentido de importância histórica. O teatro foi colocado de lado, como um primo pobre”.


O projeto “Puzzle” nasceu para o público na Feira do Livro de Frankfurt, em 2013, ano em que o Brasil foi homenageado. Estrearam na cidade alemã as três primeiras partes, A, B, e C. Ao todo, mais de sete horas em cena. Como um quebra-cabeças, trazia fragmentos de textos assinados por autores como Amilcar Bettega Barbosa, André Sant’Anna, Bernardo Carvalho, Jorge Mautner, Paulo Leminski e Veronica Stigger.


O tríptico acendeu a crítica da Alemanha, que derramou elogios sobre o diretor brasileiro. Não havia ali, naquelas sete horas de espetáculo, o Brasil clichê, do sol, do carnaval e das bundas. E, sim, um Brasil cru, marcado pela violência, pela desigualdade social, pelo consumo desenfreado, pela pobreza estética do novos ricos. “O sucesso na Alemanha deveu-se ao tom provocativo. Puzzle é como um Samurai, é preciso”, diz Hirsch.


“Puzzle (D)”, inédito em São Paulo (estreou em Santos, no festival Mirada 2014), entrelaça textos de Mário de Andrade, Haroldo de Campos, 
José Régio, Roberto Bolaños, Paulo Leminski e André Sant’Anna. No elenco, Georgette Fadel, Luiz Paetow, Magali Biff, Guilherme Weber, Luna Martinelli, Isabel Teixeira e o argentino Javier Drolas.

O espetáculo tem 60 minutos de duração. Começa resgatando artistas da Semana de Arte Moderna de 1992. “São pessoas que pensaram a arte brasileira numa escala universal”, ressalta Hirsch. Segue contrapondo o olhar crítico dos manifestos paulistas com aquilo que o diretor chama de “ufanismo vazio”. Neste momento, entra em cena o livro “O Brasil é Bom”, de André Sant’Anna. “Esta segunda parte é dedicada ao ufanismo vazio, o Brasil é bom porque é bom”, diz Hirsch.


A terceira e última parte fala da solidão da língua portuguesa na América Latina. Uma citação do escritor mexicano Roberto Bolaño (1929-2014) funciona como uma facada no estômago do Brasil. “O discurso dele é desagradável. Reflete sobre a Academia Brasileira de Letras, que tem Paulo Coelho como um dos seus membros, com a justificativa de que este divulga a língua ‘brasileira’”, conta Hirsch.

“Puzzle (D)”
Sexta-feira e sábado, às 21 horas; domingo, às 18 horas
Sesc Vila Mariana
Rua Pelotas, 141
Inf. 5080-3000
Até 8/3

10 janeiro 2015

Ópera com libreto de Vasco Graça Moura, a partir da peça 'Jacob e o Anjo', de José Régio.


Temporada DARCOS 2015 em Torres Vedras



A 05 de abril, é apresentada a ópera Banksters, de Nuno Côrte-Real, com libreto de Vasco Graça Moura, a partir da peça Jacob e o Anjo, de José Régio.

Nesta obra, cujo título sintetiza as palavras «bankers» e «gangsters», participam vários cantores portugueses, dos quais se destacam os solistas Luís Rodrigues, Dora Rodrigues e Mário João Alves, o Coro Ricercare, dirigido pelo maestro Pedro Teixeira, e o Ensemble Darcos, sob a direção musical do compositor

Nuno Côrte-Real disse que pretende que «este espetáculo seja uma homenagem ao escritor, fazendo uma síntese dos mais importantes momentos da ópera, estreada no Teatro Nacional de São Carlos em 2011».

«— A Temporada Darcos 2015 é a mais conseguida das que programei pois apesar das grandes limitações orçamentais foi possível trazer grandes pianistas como Artur Pizarro e Adriano Jordão, que vai tocar o Concerto nº3, de Beethoven, com a Orquestra do Norte em Outubro, e alguns dos melhores cantores portugueses como é o caso de Luís Rodrigues, Dora Rodrigues e Mário João Alves, que vão fazer excertos da minha  ópera Bankters em Abril por ocasião do primeiro aniversário da morte de Vasco Graça Moura, autor do inspirador libreto», conta o compositor Nuno Côrte-Real.


Construído a partir da peça Jacob e o Anjo, de José Régio, o libreto transpõe o enredo para o atual mundo da alta finança numa linguagem que recria o estilo vicentino e foi objeto de uma encenação do realizador João Botelho por ocasião da estreia no Teatro Nacional de São Carlos em 2011.

«— Não sendo possível uma reposição integral devido aos elevados custos, optou-se por uma versão de câmara para 15 instrumentistas, cantores solistas e coro, apenas com alguns apontamentos cénicos», refere o compositor. O espetáculo será apresentado no CCB nos dias 3 e 4 de Abril e um dia depois no Teatro-Cine de Torres Vedras.

http://www.rtp.pt/noticias/index.php?article=795532&tm=4&layout=121&visual=49

http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/uma-temporada-musical-para-torres-vedras-1681696

09 novembro 2013

Texto de apresentação na Universidade de Aveiro de "Acta Est Fabula", Memórias de Eugénio Lisboa, vol. I, 17/12/2012


Jorge Manuel Martins

MEMÓRIAS CRUZADAS

Para a Antonieta Lisboa


Regresso sempre à Universidade de Aveiro com verdadeiro prazer. A última vez foi para o lançamento do livro de homenagem a Eugénio Lisboagrande obra coletiva entusiasticamente organizada por Otília Pires Martins e Onésimo Teotónio de Almeida, belamente editada pela Opera Omnia e oportunamente patrocinada por esta Universidade (Martins e Almeida, 2011).

Concederam-me então o privilégio de integrar o grupo dos 72 autores desse volume e de poder contribuir com um artigo sobre diplomacia cultural, a propósito da presidência de Eugénio Lisboa na Comissão Nacional da UNESCO. Nesse meu pequeno testemunho, fiz questão de só citar textos do homenageado, para fugir à tentação de falar de mim.

Hoje, porém, tratando-se do primeiro volume das suas próprias memórias – provocantemente intituladas Acta est Fabula (Lisboa, 2012) –, seja-me permitido quebrar tal protocolo e cruzar algumas das minhas memórias pessoais com as deste autor. Por uma simples razão: somos amigos há quase quatro décadas e só esse facto explica o convite, tão inesperado quanto honroso, para estar aqui.

Antes de avançar, devo fazer um aviso e uma declaração de interesses. Não sou crítico literário e, como sociólogo da comunicação e da cultura, desconfio da investigação assética. Mais: tenho alguma dificuldade em ser isento e, no caso presente, não pretendo de todo ser isento – porque admiro muito o Eugénio Lisboa. Tanto, que faço minhas as célebres palavras de Romain Rolland, então endereçadas a Henry de Montherlant: «o mundo é mais rico para mim desde que o conheço».

Afinal, que venho eu aqui fazer? Nunca fui a Moçambique e sou (um pouco) mais novo do que o autor destas memórias. Além da amizade, só posso explicar ainda a minha presença, neste lançamento, com o facto de vir dedicando, à sua obra, ao longo dos anos, toda a atenção de que sou capaz. Julgo ter sido D’Annunzio a recordar-nos que a melhor homenagem, que podemos prestar a um autor, é justamente a atenção.

Armado destas credenciais e sabendo-me numa universidade, venho aqui propor um modelo de análise para a identificação de chaves de leitura deste singular livro. Dir-me-ão – e bem – que a escrita de Eugénio Lisboa não carece de chaves de leitura. Ele sempre praticou a clareza própria dos pensamentos profundos, a limpidez típica de quem pensa bem. Suspeito, porém, que a leitura do presente livro, à luz de uma obra produzida em mais de meio século, pode ser altamente reveladora.

Em que baseio tal suspeita? Possuindo quase todos os seus livros publicados – sempre em generosa oferta e calorosamente dedicados –, consegui agora regressar rapidamente às páginas que mais me impressionaram. E encontrei muita matéria de interesse para ser cruzada com o atual primeiro volume de memórias – enquanto não chegam os próximos... 

Não, não estou a propor um modelo de tipo psicanalítico. Estou tão-só a tentar aliciar investigadores para uma revisitação da obra do autor e, a partir de tal retrospetiva, para uma leitura das suas memórias. Como veem, é bem ambicioso o modelo de análise aqui avançado: dá tese – e de doutoramento! Não será esta a oportunidade para ensaiar o modelo. Aliás, faltar-me-iam o engenho, a arte e o tempo para concretizar tão grandioso objetivo. Por hoje e a título de exemplo, vou cingir-me à enunciação de cinco meras hipóteses de trabalho, eventualmente operativas.

RÉGIO

A primeira hipótese pode ser a de estudar a vasta produção regiana deste autor. Foi por aí que eu próprio comecei, pela leitura deslumbrada de um original sobre José Régio, que andava esquecido na editora Arcádia, até que eu o recuperei e publiquei em 1976. Dez anos depois, a história foi contada no prefácio da segunda edição (Lisboa, 1986) e a dedicatória pessoal acrescentava o seguinte: «Para o Jorge Martins, a quem este livro também pertence, por razões que o prefácio explicitamente dá». Face a tão rara generosidade, a minha surpresa ditou uma imediata e sensibilizada resposta, que veio a ressurgir, na introdução ao meu Marketing do Livro (Martins, 1999).

Curiosamente, nas presentes memórias, Eugénio Lisboa relata o seu «primeiro encontro com José Régio» em Moçambique, aos 16 anos, através da leitura do volume de abertura da saga familiar A Velha Casa – um Régio que ele próprio «viria a conhecer, pessoalmente, oito anos mais tarde e a cuja obra consagraria não pouco do [seu] tempo de estudioso da literatura e de escritor» (Lisboa, 2012: 155-158).

MONTHERLANT

A segunda hipótese, para o entendimento do homem e da obra destas memórias, pode ser o conjunto dos textos que, ao longo da vida, Eugénio Lisboa vem dedicando a Henry de Montherlant. Recentemente, afirmou que o escritor francês o fascina desde os 20 anos e que, por isso, a ele regressa constantemente «como quem recarrega baterias» (Lisboa, 2009: 171).

Recordo uma conferência de 1967 intitulada 'Henry de Montherlant e a Moral do Artista'. Só a li em 1976, quando me remeteu de Paris os dois volumes da primeira edição da Crónica dos Anos da Peste, mais tarde reeditada num só tomo pela INCM (Lisboa, 1996) e então saudada, num semanário, como «um dos livros mais desassombrados na história da nossa crítica». Foi nessa conferência que descobri esta bela confissão do nosso autor: «Montherlant, o mais pessoal, o mais independente, o mais descaradamente verdadeiro e direto de todos os escritores franceses do século XX (…), era bem o exemplo que me convinha», como «professor de independência» neste nosso «mundo de escravos e de robots» (ibid.: 218). E quanto às virtudes recomendadas por Montherlant na Carta de um Pai a seu Filho, realçava estas: «coragem, civismo, altivez, retidão, desprezo, desinteresse, cortesia, gratidão e ‘de uma maneira geral, tudo o que se entende pela palavra generosidade’» (ibid.: 220).

É ainda nessa conferência que Eugénio Lisboa resume, no binómio honestidade-coragem, a moralidade do escritor em Montherlant. E explica: «A honestidade é essencial para se não embrulhar os resultados da lucidez. Mas a honestidade pode calar-se. Para que se exprima é necessária a coragem» (ibid.: 240). Todos nós, que ouvimos e lemos o nosso autor há muitos anos, percebemos assim os motivos por que ele não se cala, mesmo quando se trata de um prémio Nobel ou de um primeiro-ministro…

A moral do artista está primeiro. Montherlant recordou-lhe que a «lealdade consigo próprio é a maior marca de respeito que um escritor pode dar ao público» (ibid.: 241). Também por isso, nas presentes memórias, afirma-se que foi tomado o partido de se dizer «só a verdade, embora não toda a verdade», até para garantir que elas valham, como «testemunho de uma época e de um lugar» (Lisboa, 2012: 71-72, 87, 135-136). Eu diria que essa é exatamente uma das razões que fazem deste volume muito mais do que simples testemunho de época e de lugar.

MUNDIVIDÊNCIA

A terceira hipótese, para cruzar esta recente retrospetiva memorialística com as linhas estruturais do homem e da obra, pode receber aqui o nome de mundividência. Há quatro anos, no dia do aniversário do Eugénio Lisboa, a minha mulher e eu oferecemos-lhe um grande livro, cheio de impressionantes fotos aéreas do planeta Terra. Quisemos assim dizer-lhe que tínhamos aprendido, com ele, a ver o mundo… de avião.

De facto, a partir de meados dos anos 70, para nós, acabados de sair do orgulhoso e provinciano isolamento português, ele passou a representar alguém que trazia notícias… lá de cima. Vinha dos fundos do hemisfério Sul (Moçambique), a caminho dos cumes do hemisfério Norte (Suécia); trazia, na mesma bagagem, a engenharia e a literatura, a indústria e a poesia, as ciências e as letras; e foi-se deixando ficar entre Londres e Lisboa.

Não era de palavras cruzadas que vinha falar: era de culturas cruzadas ou, melhor, da necessidade de esvaziar a célebre polémica das duas culturas, aberta no final dos anos 50 por C. P. Snow. Para ele, sempre foi natural o cruzamento dos dois campos. Tal como Einstein era tão notável na física como virtuoso no violino, também o jovem Eugénio triunfou tanto nas ciências como nas letras. Ele conta aqui, neste primeiro volume de memórias, como a Matemática e a Literatura o encantavam por igual (Lisboa, 2012: 85, 145), o que lhe valeu quadro de honra quase constante (ibid.: 168), a média final de 18 valores e várias bolsas de estudo (ibid.: 184).

Eu diria que este autor português teve a sorte de nascer e crescer em Moçambique. Porque – reparem nas suas expressões – «dali, via-se a Europa» (ibid.: 71), «por cortesia» de escritores como Balzac, Stendhal ou Thomas Mann (ibid.: 143-144). Em 17 anos de Lourenço Marques, Martin du Gard mostrou-lhe Paris, Pirandello a Itália, Tolstoi a Rússia, Hemingway a América e, tal como tinha acontecido a Montherlant, o celebrado autor do Quo Vadis desvendou-lhe a Roma antiga.

CLÁSSICOS

Ao citar Roma, estamos a avançar para a quarta hipótese, a do fascínio pela cultura clássica. Fascínio bem curioso num engenheiro eletrotécnico, mas perfeitamente natural em quem, logo na sua juventude laurentina, já lia Plutarco, Tácito e Platão, Ésquilo e Sófocles, estes dois últimos por indicação do seu amigo Zeca, nada menos que o futuro grande matemático Tiago Oliveira (ibid.: 115, 121, 123).

Fascínio também muito natural em quem se confessa seguidor de Montherlant e lhe chama «o último romano» e «o grande romano do nosso tempo». Para ambos os escritores, a história romana, como «microcosmo de toda a História», é verdadeiramente «o corrimão» onde podem agarrar-se, em momentos sombrios (Lisboa, 1996: 108-109). Deste fascínio pela cultura clássica decorrem, naturalmente, o título deste primeiro volume de memórias, os subtítulos de vários capítulos e tantas, tantas passagens da vasta obra de Eugénio Lisboa. E decorre também, certamente, a «sobriedade de estilo» aprendida com a «aticidade dos clássicos» (Lisboa, 2012: 80-81).

LIVROS

À quinta hipótese do meu modelo de análise poderemos chamar a magia dos livros. Teve o Eugénio Lisboa a sorte de lhe calharem grandes professores, por exemplo um que «falava dos livros com uma espécie de volúpia, mesmo de luxúria», sendo «um prazer e uma instrução ouvi-lo e viver com ele a magia dos livros» (ibid.: 46,49). Teve a sorte de, na adolescência, lhe ter entrado pelo quarto adentro uma estante com uma centena de bons livros (ibid.: 122-123) e, assim, o seu mundo de leituras ter-se alargado.

Ali, na sua Lourenço Marques, foram «horas inesquecíveis de descoberta», a ler «vorazmente – mas, sempre, devagar – e com intensidade» os livros em que se revia (ibid.: 191). Lendo-os, ele diz que, «estranha e poderosamente», sentia estar a acrescentar-se a si próprio (ibid.: 172), a ponto de se apaixonar perdidamente pela Senhora de Rênal (ibid.: 124). Aliás, o princípio do primeiro capítulo destas memórias são uma clara homenagem às primeiras linhas do Le Rouge et le Noir de Stendhal. Tal como, ao longo do presente volume, são constantes as evocações literárias dos seus grandes autores preferidos.

Foi por causa dos livros que nos tornámos amigos, o Eugénio Lisboa e eu, há quase quatro décadas, amizade que se alargou logo às nossas famílias e que perdura, com outras fiéis presenças, numa saudável e sempre divertida tertúlia prandial. Uma vez, perante uma banca de venda de livros, atravancada de lixo com capas estridentes, desabafava ele: «Até parece que os editores, depois de separarem o trigo do joio, só publicam o joio».

Mais tarde, partiu o pão em pequeninos (como gosta de dizer) e explicou-se numa entrevista (apud Martins e Almeida, 2011: 413-420): «O que se passa é quase obsceno. E mete medo. Entrar em quase 90% das livrarias causa náuseas: é o reino do mono-estilo, com a promoção sistemática e despudorada do que há de pior: o pimba, o piroso, o sensacionalão, o grande best-seller de lá de fora e de cá de dentro. O chover no molhado: promover, a grandes custos, o que por natureza da sua própria mediocridade já está promovido». E acrescentava Eugénio Lisboa, com o seu proverbial desassombro: «Os grandes heróis dos editores e dos livreiros são os senhores-da-televisão-que-também-escrevem-livros e que despertam a concupiscência dos jovens e não tão jovens que sofrem de iliteracia aguda e por isso gostam de comprar os livros daqueles senhores e senhoras que aparecem muito no petit écran». Noutro local (Lisboa, 2012b), anotava ainda o crítico: «O talento umas vezes não dá dinheiro, outras dá até bastante. (…) A falta de talento não é impeditiva de se ganhar pequenas fortunas: os escritores televisivos que o digam».

Felizmente, ainda se registam exceções promissoras, no campo livreiro. Uma delas, a favor do próprio autor desta catilinária, será a Opera Omnia, chancela de Guimarães que lançou o volume de homenagem a Eugénio Lisboa (Martins e Almeida, 2011) e acaba de lhe editar as memórias (Lisboa, 2012). De assinalável qualidade, este objeto editorial de 208 páginas pode ser assim descrito: capa, contracapa, impressão e acabamento eficazes; caderno de extratextos correto; ergonomia gráfica coerente (papel, formato, grelha, corpo e tipo de letra, entrelinhamento, brancos, hierarquia de títulos); cabeças de página à inglesa (coisa hoje rara, pois até a INCM se esquece delas, como pode verificar-se nos títulos que editou de Eugénio Lisboa...). Só é pena não apresentar um índice remissivo de nomes e lugares, que faz muita falta.

Em resumo, no presente livro, a forma ou «encenação da escrita», como alguém lhe chamou, está bem ao serviço do estatuto deste autor. Mas tal qualidade técnica – para a qual contribuem, em rede social interativa, diferentes profissões do livro (cf. Martins, 2005) – nem sempre é percebida por todos os sucessivos e diferentes clientes. Sabemos que a sociologia considera o livro como «objeto de dupla face, económica e simbólica, mercadoria e significação» e cada mediador como «personagem igualmente dupla, condenada a conciliar a arte e o dinheiro, o amor da literatura e a procura do lucro, através de estratégias que se situam algures entre dois extremos: submissão cínica às considerações comerciais e indiferença heroica ou insensata às necessidades da economia» (Bourdieu, 1999).

Eugénio Lisboa, com a sua experiência de gestor cultural, também sabe. Ele próprio afirmou, aqui, na Universidade de Aveiro: «Pessoalmente, sinto sempre uma aflita gratidão por todos aqueles que quiseram correr, com as minhas congeminações, riscos que não estou certo de merecer. Por isso digo, e com sinceridade o digo: não matem o editor, ele está a fazer o melhor que sabe» (Lisboa, 2007). Já o dissera antes, no atrás citado prefácio à reedição do seu Régio (Lisboa, 1986): «Apesar dos exemplos de gente que nos maltrata a alma e os textos, tenho sido absurdamente feliz. O meu editor mais frequente – o Estado – tem atuado de modo praticamente impecável».

***

Algumas outras hipóteses poderiam ser trabalhadas, no modelo de análise aqui brevemente ensaiado para este livro de memórias. Por exemplo: a da muita curiosidade que, logo em pequeno, o fazia «beber as conversas com sofreguidão» (Lisboa, 2012: 22); a da dureza da vida, temperada pelo gosto do que «faz viver» (ibid.: 62-63); a da ironia, do humor e da sátira, por certo afinadas mais tarde com o seu mestre Montherlant; a do fascínio pelo cinema que «perdurou até hoje» (idem: 26); a da fragilidade da vida versus o prazer da escrita (ibid.: 22, 35, 69, 80-81); e até a antiquíssima dimensão poética. Desta última eu não saberia falar, pois reconheço que tenho pouco ouvido para a poesia.

Mas aproveito a deixa da poesia para terminar com uma história autêntica, passada no solar de Teixeira de Pascoaes (perto de Amarante) e transmitida por Maria José Teixeira de Vasconcelos, sobrinha do escritor. Um dia, apareceu lá um grupo de miúdos para uma visita à casa. Entraram no terreiro e um deles, mais afoito, galgou logo as escadas, espreitou pela porta entreaberta e gritou para baixo: «Eh, malta, o gajo era rico». Nesse preciso momento, a Senhora Dona Maria José surgiu à porta e observou: «Então o menino trata o poeta por gajo?». Meio atordoado, o miúdo ainda fez este comentário: «Ah, o gajo também era poeta?»


Universidade de Aveiro, 17 de Dezembro de 2012

Jorge Manuel Martins [1]
 martins.jorge.manuel @ gmail.com

Publicado na RUA-L (Revista da Universidade de Aveiro – Letras), nº 1, 2.ª série, 2012, 401-408.


BIBLIOGRAFIA CITADA

BOURDIEU, Pierre (1999) «Une Révolution Conservatrice dans l’Édition», Actes de la Recherche en Sciences Sociales, Março, Paris, Seuil.

LISBOA, Eugénio (1986 [1976]) José Régio, a Obra e o Homem, Lisboa, Publicações Dom Quixote.
LISBOA, Eugénio (1996 [1973, 1975]) Crónica dos Anos da Peste, Lisboa, INCM.
LISBOA, Eugénio (2007) «Não Matem o Editor: Ele Está a Fazer o Melhor que Sabe», Ofícios do Livro, Universidade de Aveiro.
LISBOA, Eugénio (2009) Indícios de Oiro II, Lisboa, INCM.
LISBOA, Eugénio (2012) Acta est Fabula. Memórias I - Lourenço Marques (1930-1947), Guimarães, Opera Omnia.
LISBOA, Eugénio (2012b) «Os Juros do Talento», JL Jornal de Letras, Artes e Ideias, 21 de Março.
MARTINS, Jorge Manuel (1999) Marketing do Livro. Materiais para uma Sociologia do Editor Português, Oeiras, Celta.
MARTINS, Jorge Manuel (2005) Profissões do Livro. Editores e Gráficos, Críticos e Livreiros, Lisboa, Verbo.
MARTINS, Otília Pires / ALMEIDA, Onésimo Teotónio de (org.) (2011) Eugénio Lisboa: Vário, Intrépido e Fecundo: Uma Homenagem, Guimarães, Opera Omnia.


[1] Jorge Manuel Martins. Natural de Lisboa, doutorado em Sociologia da Comunicação e da Cultura pelo ISCTE, membro da Academia Portuguesa da História. Professor universitário e consultor de empresas, foi membro da Comissão Nacional da UNESCO e presidente do Instituto Português do Livro e das Bibliotecas. É autor de Marketing do Livro (1999), Patrimónios Mundiais com Selo Português (2003), Profissões do Livro (2005) e de vários volumes da série anual Portugal em Selos.