Decorre até 10 de setembro a exposição dos desenhos, aguarelas e pinturas de José Régio e dos seus irmãos Julio, Apolinário e João Maria, na galeria de S. Sebastião, em Portalegre.
24 maio 2015
30 março 2015
Manuela de Sousa Marques
Faleceu hoje a ensaísta e germanista Maria Manuela de Sousa Marques. Regiana entusiasta, aqui recordamos um ensaio seu sobre a estreia de Benilde ou a Virgem-Mãe:
Uma peça de José Régio – A polémica estreia de Benilde ou a Virgem Mãe
- Ficha Técnica
- Autoria: José Régio
- Estreia: Teatro Nacional, Lisboa
- Data: 25 de novembro de 1947
- Benilde: Maria Barroso (1925-)
- Eduardo: Augusto de Figueiredo (1910-1981)

Será Benilde ou a Virgem Mãe uma obra de bom teatro?
Os discordantes equivocaram-se quanto ao móbil dos aplausos, supondo que se dirigiam aquela peça e principalmente à tendência «mística» que viam por ela defendida. Foi um «não-apoiado» dirigido a uma ideologia que forçada e arbitrariamente lhe atribuíam e que na peça se não proclamava. Tomando a obra por pretexto de sectarismo esqueceram, tal como muitos dos que a aplaudiram, a peça enquanto peça e o significado mais profundo que ela encerrava. E assim se perdeu de vista, numa superficial apreensão das situações do drama, qual a verdadeira ideia que o animava, qual o cerne mais fundo que ele continha. Pretende-se ver na obra uma apologia mística e nesta interpretação infundada se uniram possivelmente certos entusiastas a certos detratores, reagindo cada partido conforme o respetivo credo.
Talvez que uns e outros sentissem mais ou menos lucidamente que uma lacuna qualquer dificilmente detetável impedia, apesar da excelência dos atores, uma total entrega e arrebatamento, ou imediato ódio e recusa por parte do espetador. Faltava o momento de sintonia emocional em adesão ou violenta repulsa que é um dos momentos decisivos do verdadeiro teatro. Este exige satisfação imediata porque para isso ele é representação dramática (gr. δρᾶμα) em presença. E assim é preciso optar por aceitar ou rejeitar o mundo do poeta que neste caso é o mundo tal como o poeta o mostra, segundo a ordem que a sua emoção lhe imprimiu. E essa ordem no teatro tem de ser ordem e não caos de onde muitas ordens poderiam nascer: uma oculta, do autor, e outras dos espetadores. Porque o teatro é lugar de emoção coletiva, ele exige unívoca mensagem.
Sempre se procura no teatro uma mensagem decisiva; é isso que José Régio, a quem alguém chamou já o poeta da indecisão, não nos dá nesta sua peça. Seria a «mística» que os neorrealistas pateadores inventaram onde não se encontrava. E é isso que todos lhe acrescentam para suprir a lacuna. Porque em Benilde não há uma tendência imediatamente detetável. A sua decisão última é a indecisão. Se as palavras finais de Eduardo «Há seres que não são deste mundo! Mas este mundo ficaria menor se eles não passassem por cá» podem implicar valorização do misticismo por parte do autor, se a semiconclusão de Eduardo pretende encaminhar a simpatia do público para a protagonista; o certo é que apesar de tudo há na própria peça elementos de destruição, de tal modo que, tal como a peça nos é apresentada, ela implica em última instância o fracasso do misticismo.
Sempre se procura no teatro uma mensagem decisiva; é isso que José Régio, a quem alguém chamou já o poeta da indecisão, não nos dá nesta sua peça. Seria a «mística» que os neorrealistas pateadores inventaram onde não se encontrava. E é isso que todos lhe acrescentam para suprir a lacuna. Porque em Benilde não há uma tendência imediatamente detetável. A sua decisão última é a indecisão. Se as palavras finais de Eduardo «Há seres que não são deste mundo! Mas este mundo ficaria menor se eles não passassem por cá» podem implicar valorização do misticismo por parte do autor, se a semiconclusão de Eduardo pretende encaminhar a simpatia do público para a protagonista; o certo é que apesar de tudo há na própria peça elementos de destruição, de tal modo que, tal como a peça nos é apresentada, ela implica em última instância o fracasso do misticismo.
A tensão dramática resulta unicamente da inclinação do autor para na própria subversão recuperar a beleza da crença mística. Mas para esta arquivivência de Régio, indeciso entre Deus e o Diabo, não há solução libertadora. Refletindo no final sobre a peça, vemos o espírito de Régio pairando sobre a sua criação no angustioso dramatismo da alma que não pode optar, dilacerada na oposição entre ciência e fé, realidade e sonho, crença e descrença, jubilosa exaltação e desespero profundo. Sabemos que a sua grandeza está na vivência profunda dessa perene oscilação. Sabemos também que Régio não podia por isso mesmo negar-nos que uma das faces do mundo de Benilde é patológica e miseravelmente terrena, e que o louco tem uma grande parte de responsabilidade na situação criada – o louco de quem Genoveva afirma que não é tão imbecil como parece; nada disto nos nega Régio, mas ao mesmo tempo compraz-se em negar emocionalmente esta miséria deliciando-se na revelação da beleza poética dos êxtases.
É subtil e poeticamente eficiente para quem lê a sua obra poética. Porém Régio esquece que destinou Benilde ao teatro, e que não é só o pathos lírico que nos impressiona no palco. Esquece também que a sua indecisão provoca no público um mal-estar que dificulta a simpatia pelos voos místicos da protagonista e pela subtil tensão emocional que não permite que a repulsa tome a primazia. Nenhum destes sentimentos se define para se sobrepor ao seu contrário, criando assim um mal-estar que esfria a nossa emoção. No teatro vamos procurar a empatia. Régio, mesmo formalmente, na linguagem que usou, teve um cuidado realista que imprime à peça o aspeto de uma ocorrência real sem fazer intervir a informação formativa da mensagem do autor. Há porém uma mensagem, como já dissemos: a indecisão. Paradoxalmente, e como era de esperar, Régio decide-se pela indecisão. Porém talvez o teatro exija uma mensagem mais simples e imediatamente acessível.
Manuela de Sousa Marques
1947, 2009.
texto em: http://manuela.delfimsantos.net/Regio.html
26 março 2015
Henrique Villaret escreve biografia de João Villaret destacando a correspondência com José Régio

João Villaret - Duas mãos que abertas deram tudo
Esta fotobiografia escrita por Henrique Villaret, foi apresentada no dia 27 de Março no Salão Nobre do Teatro Nacional D. Maria II.
Resultado de um longo trabalho de investigação, recolha e organização, esta obra comemorativa do centenário do nascimento de João Villaret (1913-1961) inclui inéditos da vida artística daquele a quem em Portugal chamavam «Génio Dramático» e no Brasil «Milagre Humano».
Com capa dura, tem 520 páginas. PORÉM, LAMENTA-SE A AUSÊNCIA DO ÍNDICE ONOMÁSTICO, INDISPENSÁVEL NUMA OBRA DESTE TIPO.
Ao longo do livro, é de destacar a correspondência com António Botto, Miguel Torga, Palmira Bastos, João Gaspar Simões, Alfredo Cortez, José Régio...
LER MAIS AQUI
E EM: 'CORRESPONDÊNCIA' 2015.
Livro de poemas de Barroso da Fonte "Braços duma cruz" transcreve carta de José Régio
Durante algum tempo desconheci a criatividade poética de Barroso da Fonte e com o seu livro «Braços duma Cruz», pude saborear 122 poemas da sua juventude, de 1958 a 1961, que estavam perdidos no meio de outro imenso espólio bibliográfico.
É uma edição fac-similada e bem coordenada pelo seu filho, João Pedro Miranda, da Editora Cidade-Berço, de 2015, em que Barroso da Fonte usava o pseudónimo raiano de João Montaño.
Tem uma cruz na capa e a contracapa é a reprodução de uma carta manuscrita de 10.09.1966, que lhe endereçou o escritor José Régio já doente, três anos antes de falecer, agradecendo-lhe os livros «Neves e Altura» e «Formas e Sombras» e diz-lhe:
«(…) O meu Amigo tem que dizer e di-lo, - não se acorrente à moda dos formalismos requintados e ocos. (…)
Também lhe aconselharia a leitura dos nossos grandes poetas e prosadores clássicos (…).
De vez em vez, há versos bastante felizes, versos cheios, nos seus poemas (…)».
O «Preâmbulo» dos «Braços duma Cruz» é assinado pelo João Montaño, tão destemido e de rosto inteiro como Barroso da Fonte que conhecemos e diz-nos:
«acima de tudo amo a lealdade. Poderia ocultar muitos destes versos censuráveis, (…) aproveito tudo quanto tenho de bom e mau».
Amigo leitor, se tiver oportunidade, leia este livro raro, de edição limitada, de belos poemas, dum poeta «antes quebrar que torcer», podendo ser pedido para ecb@mail.pt.
Ler mais em: http://tempocaminhado.blogspot.pt/2015/03/livro-bracos-duma-cruz-com-carta.html.
Ver carta em CARTAS AVULSAS DE JOSÉ RÉGIO.

25 março 2015
Morte de José Régio
A morte de José Régio numa carta inédita de Luís Amaro para Jorge de Sena
[Lisboa,] 31 de Dezembro 69.
Portugália Editora, Lda.
Apartado 289 – Lisboa
Avenida da Liberdade, 13, 3.º D.
Telefones 32 34 38 – 32 53 04 – 32 59 91
Lisboa-2
Portugal
Meu querido Amigo:
Neste trinta e um em que lhe escrevo, vai, com o meu muito saudar, o desejo ardente de um 1970 feliz, com saúde e novos belos livros.
[...]
Então que me diz à morte do [José] Régio, na manhã de 21 para 22 deste mês – isto é, às 7 horas (provavelmente) da manhã de segunda feira penúltima? No sábado o [Alberto de] Serpa já me tinha dito que eram de aceitar as piores perspetivas (o estado dele tinha-se agravado na última semana). E eu devia ter ido visitá-lo logo nesse mesmo fim de semana, e até antes. Mas não fui. A minha ida a Vila do Conde esteve iminente uma vez, mas o [João] Gaspar Simões desencontrou-se comigo (iria no carro dele) e não fui; depois disso, o Régio melhorou, para voltar a piorar – e assim, aos altos e baixos, esteve a saúde dele nestes últimos meses do ano. Na madrugada em que morreu estivera a palestrar com o rapaz que incansável e dedicadissimamente lhe serviu de enfermeiro (emagreceu 10 quilos, o pobre rapaz!); às 5 horas decidira descansarem um pouco, o rapaz adormeceu sentado num sofá, e o Régio dispôs-se também a fechar os olhos. Às 7 ou 7 e meia, passou lá por casa o primo médico, que foi dar com o doente já morto, com a campainha na mão inerte, a cabeça tombada para o lado, serenamente. Supõe-se que teria tido outro enfarte ao passar pelo sono, morrendo assim sem que ninguém lhe tivesse assistido. O tal rapaz (que de dia trabalhava numa casa em frente, de artigos elétricos) ficou impressionadíssimo, mas todos reconhecem que não pôde fazer mais: a sua dedicação foi total. Ninguém melhor do que ele poderia contar, aos biógrafos do Poeta, o que foram os seus últimos meses.
Como não podia deixar de ser, fui ao funeral – e lá estive, pela vez primeira, na velha casa do Poeta, que na verdade não tinha condições nenhumas para abrigar um doente daquela gravidade. Mas ele assim quis, e ninguém o demoveu – apesar de amar a Vida, como bem se reflete no poema que, já doente, me mandou para a tal página (que continuo lentamente organizando) do Estadão; não creio que a poesia tivesse sido escrita já depois de adoecer, ainda que saiba que, já depois de doente e apesar de rigorosamente proibido de fazer qualquer esforço, ele ainda escreveu algumas páginas do último volume da Velha Casa ou da Confissão dum Homem Religioso em que trabalhava (a propósito, envio-lhe também um trecho, que a Flama publica no n.º de hoje e numa reportagem ao escritor consagrada, que é na verdade um perfeito autorretrato e condiz com palavras que ouvi ao poeta numa tarde em que, aqui na Portugália, há uns 6 anos, o reconciliei com o Edm[undo] de Bettencourt – para afinal não mais voltarem a contactar... O [José] Régio ainda pensou, e quis, escrever um artigo sobre os seus [de Bettencourt] Poemas, mas desistiu, talvez por solidariedade para com o [João] G[aspar] Simões. Sei ainda, porque ele mo disse, que o Bettencourt foi das pessoas que ele mais estimou nos seus tempos de Coimbra: tinha por ele uma amizade quase apaixonada, segundo depreendi quando me disse que chegava a levantar-se da cama para ir ter com o Bettencourt [para] reiniciar discussões que tinham deixado em suspenso. Mas, quanto a mim e decerto quanto a toda a gente, o Bettencourt, embora inteligentíssimo, foi pessoa que parou no tempo: incorrigível preguiçoso, a sua cultura e a sua poesia devem ter-se quedado há muitíssimos anos para a posteridade – oxalá me enganasse! – Mas afinal o que eu ouvi nessa tarde reconciliatória foi isto: que, acreditando firmemente em Deus, [Régio] tinha da humanidade uma visão muito precária, isto é: não acreditava nos valores humanos, mas [nos] divinos. Isto condiz com o que vejo agora reproduzido na Flama, numa crónica destacada, belamente ilustrada, mas escrita por um jovem receoso de dizer que a obra de [José] Régio é de facto grande, e bela, e paira acima, infinitamente, dos gostos circunstanciais da mocidade que passa...
A propósito, envio-lhe um recorte miserável, da ‘Nota’ publicada na Vida Mundial (e que presumo escrita pelo [António] Valdemar – sem disso poder ter a certeza). Veja que infâmia! Começa logo pelo pretenso desacordo entre o «coração» e a «frieza» do criador-poeta: como se nos últimos livros não estivesse bem à mostra, e talvez demais até, uma sensibilidade, um quase-romantismo (em que não faltam expressões em desuso, como «arrebol», rosas desfolhadas, etc., que o Poeta decerto empregava conscientemente, marimbando-se para os jovenzinhos a quem elas horrorizam: se essas expressões condiziam com determinadas vivências suas, porque não havia de usá-las, como puro lírico que foi nessa última fase?). Dir-se-ia que o articulista proíbe os poetas-críticos de adoecerem do coração e muito menos de morrerem dele... Já fica prevenido, meu Caro Jorge de Sena!
Não: toda esta republicazinha precisa muito de si. É um crime que o meu Amigo se recuse a escrever sobre os contemporâneos, como vem acontecendo desde há anos (com raras exceções, uma delas, muito recente, para o Helder Macedo). Não. Assim, deixa o quintal das letras entregue apenas ao despotismo dos jovens que julgam dizer a última palavra! Um artigo seu sobre o [José] Régio, agora, a pôr os pontos nos ii, é indispensável. Creio que a Natércia [Freire] tenciona publicar uma Página especial dedicada ao Homem das Encruzilhadas [de Deus] (e humanamente V. sabe bem que o retrato da V[ida] Mundial é de uma parcialidade atroz: se Régio era orgulhoso, e complicado, e contraditório (?), era também de uma extraordinária humanidade que está bem patente nas suas figuras do povo na Velha Casa e nas Histórias de Mulheres, e era uma pessoa simultaneamente humilde, tímida, adorável companheiro pela simplicidade franciscana. É certo que eu não conheci o Régio intimamente – claro que também a mim, tímido mais que todos, ele de certo modo assustava pela inteligência analítica que se lhe reconhecia. Ah, mas nos meus breves encontros com o Régio, e nos almoços com ele quando vinha a Lisboa, era bem o homem simples, igual-aos-outros, apreciador de um arrozinho doce no Mesquita (restaurante que o deixou encantado) e dialogando à vontade com uma criança ou com um pobre-diabo, sem pose nem encadernações de grande homem, nada régio, mesmo... Sabemos que por trás de tudo isso estava uma inteligência que não dormia, o tal orgulho, o tal feroz sentido de independência, etc. Mas, meu Deus, então a sua Poesia não reflete magistralmente todo esse dualismo? E os seus romances também não?).
Basta de falar de um assunto que o meu Amigo conhece muito melhor do que eu. Ah, é verdade: aqui na casa gostariam de publicar um trabalho seu sobre o [José] Régio – estará disposto a fazê-lo? Claro que o tal velho projeto seu, ou o contrato até para a Arcádia, se esfuma no tempo, cada vez mais esfumado... ou não? Oxalá que não.
[...]
Enfim, basta de conversa (aproveitei umas horas em que me deixaram em paz, para falar destas muitas e variadas coisas, algumas das quais com interesse para a casa. Aliás conversar consigo, mesmo assim ao correr da máquina, foi sempre para mim um prazer raro).
Adeus, querido e eminente Amigo! Bom Ano para si, para D. Mécia, para todo o clã, e o abraço apertado do seu velho e dedicado
Neste trinta e um em que lhe escrevo, vai, com o meu muito saudar, o desejo ardente de um 1970 feliz, com saúde e novos belos livros.
[...]
Então que me diz à morte do [José] Régio, na manhã de 21 para 22 deste mês – isto é, às 7 horas (provavelmente) da manhã de segunda feira penúltima? No sábado o [Alberto de] Serpa já me tinha dito que eram de aceitar as piores perspetivas (o estado dele tinha-se agravado na última semana). E eu devia ter ido visitá-lo logo nesse mesmo fim de semana, e até antes. Mas não fui. A minha ida a Vila do Conde esteve iminente uma vez, mas o [João] Gaspar Simões desencontrou-se comigo (iria no carro dele) e não fui; depois disso, o Régio melhorou, para voltar a piorar – e assim, aos altos e baixos, esteve a saúde dele nestes últimos meses do ano. Na madrugada em que morreu estivera a palestrar com o rapaz que incansável e dedicadissimamente lhe serviu de enfermeiro (emagreceu 10 quilos, o pobre rapaz!); às 5 horas decidira descansarem um pouco, o rapaz adormeceu sentado num sofá, e o Régio dispôs-se também a fechar os olhos. Às 7 ou 7 e meia, passou lá por casa o primo médico, que foi dar com o doente já morto, com a campainha na mão inerte, a cabeça tombada para o lado, serenamente. Supõe-se que teria tido outro enfarte ao passar pelo sono, morrendo assim sem que ninguém lhe tivesse assistido. O tal rapaz (que de dia trabalhava numa casa em frente, de artigos elétricos) ficou impressionadíssimo, mas todos reconhecem que não pôde fazer mais: a sua dedicação foi total. Ninguém melhor do que ele poderia contar, aos biógrafos do Poeta, o que foram os seus últimos meses.
Como não podia deixar de ser, fui ao funeral – e lá estive, pela vez primeira, na velha casa do Poeta, que na verdade não tinha condições nenhumas para abrigar um doente daquela gravidade. Mas ele assim quis, e ninguém o demoveu – apesar de amar a Vida, como bem se reflete no poema que, já doente, me mandou para a tal página (que continuo lentamente organizando) do Estadão; não creio que a poesia tivesse sido escrita já depois de adoecer, ainda que saiba que, já depois de doente e apesar de rigorosamente proibido de fazer qualquer esforço, ele ainda escreveu algumas páginas do último volume da Velha Casa ou da Confissão dum Homem Religioso em que trabalhava (a propósito, envio-lhe também um trecho, que a Flama publica no n.º de hoje e numa reportagem ao escritor consagrada, que é na verdade um perfeito autorretrato e condiz com palavras que ouvi ao poeta numa tarde em que, aqui na Portugália, há uns 6 anos, o reconciliei com o Edm[undo] de Bettencourt – para afinal não mais voltarem a contactar... O [José] Régio ainda pensou, e quis, escrever um artigo sobre os seus [de Bettencourt] Poemas, mas desistiu, talvez por solidariedade para com o [João] G[aspar] Simões. Sei ainda, porque ele mo disse, que o Bettencourt foi das pessoas que ele mais estimou nos seus tempos de Coimbra: tinha por ele uma amizade quase apaixonada, segundo depreendi quando me disse que chegava a levantar-se da cama para ir ter com o Bettencourt [para] reiniciar discussões que tinham deixado em suspenso. Mas, quanto a mim e decerto quanto a toda a gente, o Bettencourt, embora inteligentíssimo, foi pessoa que parou no tempo: incorrigível preguiçoso, a sua cultura e a sua poesia devem ter-se quedado há muitíssimos anos para a posteridade – oxalá me enganasse! – Mas afinal o que eu ouvi nessa tarde reconciliatória foi isto: que, acreditando firmemente em Deus, [Régio] tinha da humanidade uma visão muito precária, isto é: não acreditava nos valores humanos, mas [nos] divinos. Isto condiz com o que vejo agora reproduzido na Flama, numa crónica destacada, belamente ilustrada, mas escrita por um jovem receoso de dizer que a obra de [José] Régio é de facto grande, e bela, e paira acima, infinitamente, dos gostos circunstanciais da mocidade que passa...
A propósito, envio-lhe um recorte miserável, da ‘Nota’ publicada na Vida Mundial (e que presumo escrita pelo [António] Valdemar – sem disso poder ter a certeza). Veja que infâmia! Começa logo pelo pretenso desacordo entre o «coração» e a «frieza» do criador-poeta: como se nos últimos livros não estivesse bem à mostra, e talvez demais até, uma sensibilidade, um quase-romantismo (em que não faltam expressões em desuso, como «arrebol», rosas desfolhadas, etc., que o Poeta decerto empregava conscientemente, marimbando-se para os jovenzinhos a quem elas horrorizam: se essas expressões condiziam com determinadas vivências suas, porque não havia de usá-las, como puro lírico que foi nessa última fase?). Dir-se-ia que o articulista proíbe os poetas-críticos de adoecerem do coração e muito menos de morrerem dele... Já fica prevenido, meu Caro Jorge de Sena!
Não: toda esta republicazinha precisa muito de si. É um crime que o meu Amigo se recuse a escrever sobre os contemporâneos, como vem acontecendo desde há anos (com raras exceções, uma delas, muito recente, para o Helder Macedo). Não. Assim, deixa o quintal das letras entregue apenas ao despotismo dos jovens que julgam dizer a última palavra! Um artigo seu sobre o [José] Régio, agora, a pôr os pontos nos ii, é indispensável. Creio que a Natércia [Freire] tenciona publicar uma Página especial dedicada ao Homem das Encruzilhadas [de Deus] (e humanamente V. sabe bem que o retrato da V[ida] Mundial é de uma parcialidade atroz: se Régio era orgulhoso, e complicado, e contraditório (?), era também de uma extraordinária humanidade que está bem patente nas suas figuras do povo na Velha Casa e nas Histórias de Mulheres, e era uma pessoa simultaneamente humilde, tímida, adorável companheiro pela simplicidade franciscana. É certo que eu não conheci o Régio intimamente – claro que também a mim, tímido mais que todos, ele de certo modo assustava pela inteligência analítica que se lhe reconhecia. Ah, mas nos meus breves encontros com o Régio, e nos almoços com ele quando vinha a Lisboa, era bem o homem simples, igual-aos-outros, apreciador de um arrozinho doce no Mesquita (restaurante que o deixou encantado) e dialogando à vontade com uma criança ou com um pobre-diabo, sem pose nem encadernações de grande homem, nada régio, mesmo... Sabemos que por trás de tudo isso estava uma inteligência que não dormia, o tal orgulho, o tal feroz sentido de independência, etc. Mas, meu Deus, então a sua Poesia não reflete magistralmente todo esse dualismo? E os seus romances também não?).
Basta de falar de um assunto que o meu Amigo conhece muito melhor do que eu. Ah, é verdade: aqui na casa gostariam de publicar um trabalho seu sobre o [José] Régio – estará disposto a fazê-lo? Claro que o tal velho projeto seu, ou o contrato até para a Arcádia, se esfuma no tempo, cada vez mais esfumado... ou não? Oxalá que não.
[...]
Enfim, basta de conversa (aproveitei umas horas em que me deixaram em paz, para falar destas muitas e variadas coisas, algumas das quais com interesse para a casa. Aliás conversar consigo, mesmo assim ao correr da máquina, foi sempre para mim um prazer raro).
Adeus, querido e eminente Amigo! Bom Ano para si, para D. Mécia, para todo o clã, e o abraço apertado do seu velho e dedicado
Luís Amaro
11 março 2015
'Os poetas' de José Régio em novo disco do cantor José Cid
Chega em abril o novo álbum de José Cid. Menino-Prodígio , «álbum muito roqueiro, muito verdadeiro e completamente analógico», terá festa de lançamento a 5 desse mês e Cid avança à BLITZ que o mesmo foi gravado apenas com três músicos: Luís Varatojo (Pólo Norte) na bateria, Chico Martins nas guitarras e contrabaixo e Cid em órgão hammond. Convidados especiais, refere Cid, apenas um: o escritor José Régio, que «oferece» a letra a uma das canções.
Ler mais aqui.
«Há ainda, neste disco, um poema brutal de José Régio, ‘Os poetas (Há certos Reis…)’, que é muito interveniente, que tem tudo a ver com a atual situação política, não só do país, como global», sentenciou (...)».
Ler mais aqui.
19 fevereiro 2015
Textos de José Régio em espetáculo de São Paulo
“Puzzle (D)” entrelaça textos variados
Qui, 19 de Fevereiro de 2015
“Puzzle” nasceu em 2013 na Feira do Livro de Frankfurt e traz crítica ao Brasil.
O cenário, assinado por Daniela Thomas e Felipe Tassara, resume-se a camadas de papel em branco, que, ao longo do espetáculo, ganham cores e letras. Não existe história, pelo menos história linear, com princípio, meio e fim. “Puzzle (D)”, espetáculo de Felipe Hirsch que estreou na última semana no Sesc Vila Mariana, é uma “jam” literária.
“Tem muito improviso. Construímos com a Sutil (Sutil Companhia de Teatro) uma linguagem forte. E agora encontrei outra linguagem”, comenta Hirsch, sentado na plateia do teatro, enquanto o cenário em branco vai sendo construído. “Queria fazer algo importante. Não um arrasa quarteirão. Mas no sentido de importância histórica. O teatro foi colocado de lado, como um primo pobre”.
O projeto “Puzzle” nasceu para o público na Feira do Livro de Frankfurt, em 2013, ano em que o Brasil foi homenageado. Estrearam na cidade alemã as três primeiras partes, A, B, e C. Ao todo, mais de sete horas em cena. Como um quebra-cabeças, trazia fragmentos de textos assinados por autores como Amilcar Bettega Barbosa, André Sant’Anna, Bernardo Carvalho, Jorge Mautner, Paulo Leminski e Veronica Stigger.
O tríptico acendeu a crítica da Alemanha, que derramou elogios sobre o diretor brasileiro. Não havia ali, naquelas sete horas de espetáculo, o Brasil clichê, do sol, do carnaval e das bundas. E, sim, um Brasil cru, marcado pela violência, pela desigualdade social, pelo consumo desenfreado, pela pobreza estética do novos ricos. “O sucesso na Alemanha deveu-se ao tom provocativo. Puzzle é como um Samurai, é preciso”, diz Hirsch.
“Puzzle (D)”, inédito em São Paulo (estreou em Santos, no festival Mirada 2014), entrelaça textos de Mário de Andrade, Haroldo de Campos, José Régio, Roberto Bolaños, Paulo Leminski e André Sant’Anna. No elenco, Georgette Fadel, Luiz Paetow, Magali Biff, Guilherme Weber, Luna Martinelli, Isabel Teixeira e o argentino Javier Drolas.
O espetáculo tem 60 minutos de duração. Começa resgatando artistas da Semana de Arte Moderna de 1992. “São pessoas que pensaram a arte brasileira numa escala universal”, ressalta Hirsch. Segue contrapondo o olhar crítico dos manifestos paulistas com aquilo que o diretor chama de “ufanismo vazio”. Neste momento, entra em cena o livro “O Brasil é Bom”, de André Sant’Anna. “Esta segunda parte é dedicada ao ufanismo vazio, o Brasil é bom porque é bom”, diz Hirsch.
A terceira e última parte fala da solidão da língua portuguesa na América Latina. Uma citação do escritor mexicano Roberto Bolaño (1929-2014) funciona como uma facada no estômago do Brasil. “O discurso dele é desagradável. Reflete sobre a Academia Brasileira de Letras, que tem Paulo Coelho como um dos seus membros, com a justificativa de que este divulga a língua ‘brasileira’”, conta Hirsch.
“Puzzle (D)”
Sexta-feira e sábado, às 21 horas; domingo, às 18 horas
Sesc Vila Mariana
Rua Pelotas, 141
Inf. 5080-3000
Até 8/3
21 janeiro 2015
Evocação de Orlando Taipa pelo seu neto - 1
No Bom Pastor
Sento-me ao canto, perto da janela que há já muito tempo espreita a esquina. As mesas, redondas e pequenas, são, no mínimo, muito parecidas com as da minha memória. O tecto conserva a âncora dourada, recordando a firmeza dos ventos que aqui me foram soprados.
Foi o meu avô materno quem mos soprou. Homem grande – não só no físico –, já ralo de cabelo, trazia-me aqui, conversava comigo, mimava-me com sumos, bolos, e sobretudo rebuçados. Frescos pedaços de mel endurecido que me calavam enquanto este ou aquele senhor trocavam ideias com o meu avô.
O meu avô, homem de letras, filosofia e História, adorava conversar, discutir ideias. Adorava os netos e trazia-os às conversas. Eu não percebia nada, mas parecia sempre que discutiam coisas sérias e importantes. Ou talvez não.
Está mais pequeno, o café. É agora mais da esquina, encolhido. Mas a lembrança do meu avô não desaparece, antes se dilui por estas mesas da minha memória, aperfeiçoadas pelo tempo, como um exemplo que só posso sonhar alcançar. Não por falta de vontade, mas porque o céu não mo permite…: o Dr. Orlando Taipa é, na minha lembrança, maior que o tecto azul em cujas nuvens me perco. Mas tenho sempre a ténue esperança de um dia ser metade do homem que o meu avô é na memória que tenho dele.
Gonçalo Taipa Teixeira
22 de Novembro de 2002, Vila do Conde (Café Bom Pastor)
13 janeiro 2015
Poetas da presença - 2 - Cristovam Pavia
Filho de um poeta da presença, Cristovam Pavia pertenceu à geração de 50 que tomou Régio como mestre e cultivou um certo revivalismo da poética presencista, a que chamaremos o neopresencismo. Pelo seu espírito e pelas suas ligações familiares, Cristovam Pavia é definitivamente digno do título de neopresencista.
(1933-1968)
Cristovam Pavia é o pseudónimo de Francisco António Lahmeyer Flores Bugalho, filho do poeta Francisco Bugalho e neto materno do Prof. António Flores.
Nascido em Lisboa, aqui morreu, com 35 anos apenas, a 13 de Outubro de 1968 – no mesmo dia em que no Brasil faleceu Manuel Bandeira, um dos seus poetas mais amados (alguns dos outros: Rainer Maria Rilke, sobre quem preparava, sem jamais a acabar, a tese de licenciatura; José Régio, a quem pelas noites fora escrevia cartas que eram a arrebatada confissão de vivências espirituais; Adolfo Casais Monteiro e Jorge de Sena, de quem nos falava com ardor).
Passou a infância e parte da adolescência em Castelo de Vide, nas quintas familiares que nos versos tão limpidamente evoca. Frequentou as Faculdades de Direito e de Letras, em Lisboa, e estudou também na Alemanha, onde, de outra ocasião, longamente permaneceu a tratar-se da afeção nervosa que veio, talvez, a causar-lhe a morte sob os rodados de um comboio. A sua voz, que de algum modo se identifica com a de Sebastião da Gama – que ele intimamente conheceu –, é, no coral da jovem poesia portuguesa, uma das mais puras e mais poéticas (no sentido em que a poesia transcende a pesquisa meramente cerebral de engenhosas formas verbais, para ser a transfiguração, através da palavra escrita, de sentimentos, ideias, emoções, experiências – de toda a humanidade do poeta, em suma).
Na sua densa concisão, os únicos 35 Poemas que nos legou bem merecem estas certeiras palavras do seu mestre José Régio: «Poesia não realista, não descritiva, não retórica, – exigente e discreta, de bom gosto, direta às vezes outras vezes exprimindo por alusões e sugestões, próxima do vago da música. Frequentemente hermética, então de aquele hermetismo ou semi-hermetismo, que é o autenticamente poético, por natural e boa parte da alta poesia».
Luís Amaro
Artigo no Diário de Notícias.
Obra poética
1. Cristovam Pavia (1959) 35 Poemas, col. 'Círculo de Poesia', 6, Lisboa: Morais.
2. Cristovam Pavia (1982) Poesia, col. 'Círculo de Poesia', 108, Lisboa: Moraes.
Bibliografia
- João Gaspar SIMÕES (1962) 35 Poemas, Crítica II, 2.º vol. (1943-1961), 285-290;
- Maria Aliete GALHOZ (1968) Deixei-te só à hora de morrer, Supl. lit., A Capital, Lisboa, 20.11;
- Fernando J. B. MARTINHO (1968) Na Morte de Cristovam Pavia, Sup. lit., Diário de Lisboa, Lisboa, 28.11, 5;
- Alberto Vaz da SILVA, João Bénard da COSTA, M. S. LOURENÇO, Nuno de BRAGANÇA e Pedro TAMEN (1968) In memoriam Cristovam Pavia, O Tempo e o Modo 64, 65, 66, Lisboa;
- José RÉGIO (1969) Cristovam Pavia e os '35 Poemas', Das Artes, das Letras, Supl. lit., O Primeiro de Janeiro, Porto, 29.01; (1994) reprod. em CRÍTICA E ENSAIO/2, col. 'Obras Escolhidas', s/l: Círculo de Leitores, 338-343.
- António Ramos ROSA (1969) Nótula crítico-biográfica, Líricas Portuguesas – 4.ª série, Lisboa: Portugália, 91-96.
- Célia da Rocha GOMES (2003) «UMA VOZ SERENA DE INFÂNCIA» em '35 Poemas' de Cristovam Pavia, Dissertação de Mestrado em Literaturas Românicas Modernas e Contemporâneas apresentada à Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Porto.
- Fernando J.B. MARTINHO (2010) Prefácio e nota biográfica, Cristovam Pavia, Poesia, Lisboa: Dom Quixote.
REQUIEM
(ao menino morto, eu próprio)
A tarde declina com uma luz ténue.
Estou grave e calmo,
E não preciso de ninguém
Nem a luz da tarde me comove: entendo-a.
Até as imagens me são inúteis porque contemplo tudo.
Os ventos rodam, rodam, gemem e cantam
E voltam. São os mesmos:
Como os conheço desde a infância!
E a terra húmida das tapadas da quinta...
O estrume da égua morta quando eu tinha seis anos
Gira transparente nesta brisa fria...
(Na noite gotas de orvalho sumiam-se sob as folhas das ervas...)
Oh, não há solidão nas neblinas de inverno
Pela erma planície...
E foi engano julgar-te morto e tão só nas tapadas em silêncio...
Agora sei que vives mais
Porque começo a sentir a tua presença, grande como o silêncio...
Já me não vem a vaga tristeza do teu chamamento longínquo.
Já me confundo contigo.
POEMA
(de uma fotografia de meu Pai comigo,
pequeno de meses, ao colo)
pequeno de meses, ao colo)
Vamos através do incêndio
Mas não temas, meu filho.
Podes dormir nos meus braços frescos e fortes,
Embala-te a cadência dos meus passos.
Vamos através do incêndio
E sonhas.
Detrás das tuas pálpebras a tarde
Beija e doira as folhas dos sobreiros.
E quase me esqueço
Deste puro fogo,
P’ra te dar frescura.
Arde o meu sangue calmo,
E o meu suor, arde.
E devagar,
Vamos através do incêndio.
Dorme, meu filho.
MAIS UMA POESIA A NOSSA SENHORA
Trago-Vos rosas vermelhas, rosas pálidas, rosas brancas...
Trago-Vos violetas e margaridas
Em molhos orvalhados...
Trago-Vos a alegria dos campos...
A claridade do céu azul reflectido nas águas...
Trago-Vos o meu amor natural e fresco
Entre as outras flores...
«O POEMA QUE HEI DE ESCREVER...»
O poema que hei de escrever para ti, dando notícias
Do último reduto das coisas, das profundidades intactas,
Nasce, adormece e referve-me no sangue
Com a íntima lentidão dos teus seios desabrochando,
Porque, sei, não estás longe (nem da minha vida!), meu mistério fiel.
Hoje a nossa companhia é a tua inconsciência e o teu instinto: puro
Instinto que eu, de longe, embalo e velo
E acordará («em frente!») às primeiras palavras
Do poema, quando ele despontar.
Cristovam Pavia, 35 Poemas
_____________
Efeméride
13 DE OUTUBRO - CRISTOVAM PAVIA
Cristovam Pavia, de seu verdadeiro nome Francisco António Lahmeyer Flores Bugalho, poeta português, morreu em Lisboa no dia 13 de Outubro de 1968. Nascera, igualmente na capital portuguesa, em 7 de Outubro de 1933, tendo passado a infância em Castelo de Vide. Era filho do também poeta Francisco Bugalho, da geração da revista Presença. Utilizou igualmente os pseudónimos Sisto Esfudo, Marcos Trigo e Dr. Geraldo Menezes da Cunha Ferreira.
A partir de 1940, residiu em Lisboa, onde terminou os estudos liceais. Frequentou depois a Faculdade de Direito de Lisboa, que abandonou para ingressar na Faculdade de Letras.
Entre 1960 e a sua morte, trabalhou na construção civil, vivendo entre Lisboa, Castelo de Vide, Paris e Heidelberg, onde recebeu acompanhamento psicoterapêutico.
A sua única obra poética editada em vida, 35 Poemas, data de 1959, embora tenha colaborado com poesias de sua autoria em diversos jornais e revistas, como Diário Popular, Árvore, Anteu, Távola Redonda e Serões. Morreu, prematuramente, seis dias depois de ter completado 35 anos de idade.
10 janeiro 2015
Ópera com libreto de Vasco Graça Moura, a partir da peça 'Jacob e o Anjo', de José Régio.
Temporada DARCOS 2015 em Torres Vedras
A 05 de abril, é apresentada a ópera Banksters, de Nuno Côrte-Real, com libreto de Vasco Graça Moura, a partir da peça Jacob e o Anjo, de José Régio.
Nesta obra, cujo título sintetiza as palavras «bankers» e «gangsters», participam vários cantores portugueses, dos quais se destacam os solistas Luís Rodrigues, Dora Rodrigues e Mário João Alves, o Coro Ricercare, dirigido pelo maestro Pedro Teixeira, e o Ensemble Darcos, sob a direção musical do compositor
Nuno Côrte-Real disse que pretende que «este espetáculo seja uma homenagem ao escritor, fazendo uma síntese dos mais importantes momentos da ópera, estreada no Teatro Nacional de São Carlos em 2011».
«— A Temporada Darcos 2015 é a mais conseguida das que programei pois apesar das grandes limitações orçamentais foi possível trazer grandes pianistas como Artur Pizarro e Adriano Jordão, que vai tocar o Concerto nº3, de Beethoven, com a Orquestra do Norte em Outubro, e alguns dos melhores cantores portugueses como é o caso de Luís Rodrigues, Dora Rodrigues e Mário João Alves, que vão fazer excertos da minha ópera Bankters em Abril por ocasião do primeiro aniversário da morte de Vasco Graça Moura, autor do inspirador libreto», conta o compositor Nuno Côrte-Real.
Construído a partir da peça Jacob e o Anjo, de José Régio, o libreto transpõe o enredo para o atual mundo da alta finança numa linguagem que recria o estilo vicentino e foi objeto de uma encenação do realizador João Botelho por ocasião da estreia no Teatro Nacional de São Carlos em 2011.
«— Não sendo possível uma reposição integral devido aos elevados custos, optou-se por uma versão de câmara para 15 instrumentistas, cantores solistas e coro, apenas com alguns apontamentos cénicos», refere o compositor. O espetáculo será apresentado no CCB nos dias 3 e 4 de Abril e um dia depois no Teatro-Cine de Torres Vedras.
http://www.rtp.pt/noticias/index.php?article=795532&tm=4&layout=121&visual=49
http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/uma-temporada-musical-para-torres-vedras-1681696
30 dezembro 2014
Poetas da presença - 1 - Fausto José
(1903-1975)
Biografia
Fausto José dos Santos Júnior nasceu em Aldeia de Cima, à época pertencente à freguesia e concelho de Armamar (desde 1947 pertence à freguesia de Aldeias, criada nesse ano), em 18 de Março de 1903 (data oficial; a real é 13 de Março). Eram seus pais Fausto José dos Santos, advogado e conservador do Registo Predial, e Dona Laura Amanda Alves Teixeira Basto dos Santos, ambos naturais de Armamar. O casal teve dois filhos: Fausto e Alípio.
Faleceu na aldeia natal, em 23 de Setembro de 1975, em circunstâncias algo dramáticas devido à doença e mostrando sinais de perturbação mental, e ali está sepultado.
Em Junho de 2003, a Câmara Municipal de Armamar comemorou o 1.º centenário do seu nascimento, com uma sessão evocativa, uma exposição bibliográfica e iconográfica, e a edição da biografia-estudo-antologia Fausto José poeta de Portugal, de César Luís de Carvalho. No mesmo ano foi-lhe erigido um memorial em Aldeia de Cima, com o busto do poeta encimando uma pilha dos seus livros, e dado o seu nome à praça central da povoação.
Carreira escolar e profissional
Após os estudos primários em Aldeia de Cima, onde a família residia e possuía bens avultados, frequentou o Liceu Nacional de Lamego (1914-1917) e depois o Liceu Central de Rodrigues de Freitas, no Porto (1917-1920). Seguindo as pisadas do pai, licenciou-se em Direito pela Universidade de Coimbra, que frequentou entre 1920 e 1929. Foi condiscípulo de Horácio de Assis Gonçalves, que viria a ser governador civil de Vila Real.
Inicia a vida profissional como jovem advogado em Armamar, com pouca vocação, pouco nome e pouca clientela. Apresenta-se a concurso para a carreira consular, sem contudo obter sucesso. Abraça então a carreira de conservador do Registo Civil. Exerceu essas funções em Porto Santo (1938-1939), Tarouca (1951-1964) e Peso da Régua (1964-1971).
Em Fevereiro de 1939 casou com Dona Maria Francisca de Freitas Branco, no Funchal. No mesmo ano nasce Bernardo, o filho único.
Foi presidente da Câmara Municipal de Armamar, entre 1940 e 1951. Não apreciava sobremaneira funções burocráticas. Em carta a José Régio, com quem manteve correspondência frequente, dirá: «Decididamente, não nasci para fazer registos e passar certidões que nada me dizem». Queixa-se igualmente do cargo de presidente, que o enreda em pequenas questões de ordem prática. Quando se liberta desse cargo, desabafa, em carta a Alberto de Serpa: «A saída da Câmara, não calculas, foi para mim imensamente agradável e em todos os sentidos. Descansa o espírito que andava sempre ocupado com mil e um cuidados; descansa o corpo que continuamente se deslocava por freguesias, aldeolas e lugares, solicitado por infinitas necessidades, e até descansa a bolsa que frequentemente se esvaziava só para servir os outros (…)».
Do que gostava verdadeiramente era da caça. «A caça é uma evasão… Esquecemo-nos de todos e de tudo! E até das nossas mágoas…» – deixará escrito numa folha manuscrita. E, noutro local: «Cada qual é para o que nasce, diz o povo. Estava escrito: tinha de ser caçador de perdiz. E, para a perdiz, um galgo...». Esta paixão, que o leva a calcorrear incansavelmente montes e vales, ditou-lhe um dos seus livros, É el-rei que vai à caça, de 1951. É também uma das razões principais da sua amizade fraterna com Tomás de Figueiredo, outro grande escritor-caçador, que vinha frequentemente a Aldeia de Cima para umas caçadas ou umas cavaqueiras.
Poeta da presença
Estudante em Coimbra, cedo integrou um círculo de jovens interessados pelas letras, que incluía José Régio, Miguel Torga, Alberto de Serpa, Branquinho da Fonseca e outros – justamente a geração que acabaria por fundar a revista Presença, o órgão da chamada segunda geração modernista. Colaborou nas revistas Byzancio (seis números, em 1923 e 1924), de que foi um dos directores, assinando Fausto dos Santos, e Tríptico (1924). Mas é à Presença que dá colaboração mais assídua, até porque a revista tem uma duração relativamente extensa (1927-1940). Não só colabora, como contribui financeiramente para ela, uma vez regressado à tebaida de Armamar. Em resposta a um apelo de José Régio, escreve: «(…) Sinto verdadeiramente não te poder dar uma resposta mais extensa… mas as finanças no momento presente andam um pouco debilitadas e por isso apenas te envio vinte escudos; contudo logo que me veja mais bem fornecido de massas, não deixarei de concorrer com mais alguma coisa para que a 'Presença' continue singrando (…) com o mesmo aprumo e galhardia com que tem seguido até hoje». Este apoio financeiro repetiu-se com alguma regularidade.
Fausto José era um homem bom, simples, sensível. Confraternizava com os desprotegidos, a quem dedicou O livro dos mendigos, de 1966. «Era modesto, afável, alegre, romântico, desorganizado, bondoso, mulherengo, católico convicto e praticante fervoroso e também caçador de primeira plana e bom garfo. Gostava de discutir, mas sabia ouvir. Não era dos que procuram impor os seus pontos de vista». (Testemunho de um amigo próximo num boletim da Câmara Municipal de Armamar, de 1993).
Além de José Régio, correspondia-se com Alberto de Serpa, Adolfo Casais Monteiro, Branquinho da Fonseca, Tomás de Figueiredo, Vitorino Nemésio. Era apreciador de tertúlias, quer na sua casa de Aldeia de Cima, quer em Vila do Conde (à roda de Régio), quer em Esposende (em casa de Agustina Bessa-Luís). Contudo, a sua atitude era um tanto ausente, talvez devido a problemas de audição, de que se começa a queixar em 1955. Agustina Bessa-Luís recorda: «De todos os que vinham pelo Diana-Bar, à tarde, era o Fausto José quem não conversava solenemente, como quem diz missa. (…) O Fausto ficava no seu castelo, a fumar e a sorrir. Ouvia ou não ouvia? Era uma surdez angélica (…)».
Lado a lado com a criação poética, faz palestras aos microfones da Rádio Alto Douro sobre temas literários, a partir de 1954.
Se a poesia dos presencistas é, na sua quase totalidade, de matriz provincial, como nota David Mourão-Ferreira, a de Fausto José e a de Francisco Bugalho são-no mais que qualquer outra. Para isso terá contribuído o facto de ambos viverem em meios provincianos: Fausto José em Armamar, Francisco Bugalho em Castelo de Vide. A poesia de Fausto José «(…) representa, no grupo [de Presença], um compromisso com a lírica saudosa e folclorizante», escrevem António José Saraiva e Óscar Lopes. E João Gaspar Simões diz: «Tal como o lirismo desses mestres (Rodrigues Lobo, Gonzaga e João de Deus) também o dele anda mais perto da natureza que da cultura, é mais elementar que erudito, participa mais na vida das coisas que na vida das letras».
É certo que, nos primeiros livros, ainda se podem notar uns laivos de presencismo. Mas torna-se difícil ligar a sua poesia tradicionalista, bucólica, compassiva, suave, toda voltada para a vida exterior, um pouco à maneira do Guerra Junqueiro de Os simples, com a poesia dos homens da Presença, centrada na subjetividade e na vida interior. Essa poesia, não obstante o afastamento temático e formal em relação ao modernismo, era aceite pelos companheiros porque a reconheciam como viva e autêntica – valores essenciais para a geração da Presença. Por tudo isso, Luís Veiga Leitão sustenta que «as ligações de Fausto José com a Presença são de natureza mais acidental que de facto». E, mais adiante: «Há, a espaços, na poesia de Fausto José, uma serenidade e candura que vivamente impressionam. É o chamado 'lirismo puro'». E Montezuma de Carvalho adianta: «Talvez o campo e um maior contacto com a natureza expliquem essa paz que reina na sua poesia».
Eugénio Lisboa, por seu turno, considera: «Pureza, sinceridade, melancolia, luminosidade, um certo tradicionalismo arreigado – são de facto características definidoras desta poesia discreta mas autêntica».
Já agora, interessará conhecer também o que o próprio poeta pensava da poesia: «(…) sensibilidade apurada, poder de expressão, ternura, piedade, enfim, os sentimentos mais puros e mais belos, que são as asas com que a alma se eleva para as alturas (…)».
Bibliografia
Da sua bibliografia constam dez títulos de poesia: Fonte branca (1928); Planalto (1930); Remoinho (1933); Síntese (1934); Solstício (1940); Embalo (1942); Dona Donzela Senhorinha (1946); É el-rei que vai à caça (1951); Voz nua (1957); e O livro dos mendigos (1966). Hoje muito difíceis de encontrar, estes dez livros foram reunidos pela Câmara Municipal de Armamar em dois volumes, publicados em 1999, sob o título genérico de Obra do poeta Fausto José, e prefaciados por Agustina Bessa-Luís. Publicou além disso uma obra de natureza ensaística, hoje praticamente ignorada: Aspectos da política colonial. A escravatura (1935). Trata-se de «uma dissertação apresentada para 3.º secretário de legação e cônsul de 3.ª classe», no âmbito do concurso para a carreira diplomática.
MENDIGO MORTO
Foram encontrá-lo morto,
Hirto e rijo como um pau;
Toda aquela escura noite
O vento soprava mau,
Caíra neve, e o granizo
Fundia pelo chão liso.
Deitado sobre umas pedras ,
Foram encontrá-lo morto
Ao raiar da madrugada
Como os barcos naufragados
Quando partem as amarras…
Na terra, fundo, cravados,
Seus dedos lembravam garras!
Foi sob a mina do Enxidro:
Tinha os olhos muito abertos,
Tristes como os céus desertos…
E, dentre a barba cerrada,
Uma lágrima gelada
Como uma conta de vidro.
Fausto José, Obra do poeta Fausto José. Vol. 1, Armamar: Câmara Municipal, 1999.
09 novembro 2013
Texto de apresentação na Universidade de Aveiro de "Acta Est Fabula", Memórias de Eugénio Lisboa, vol. I, 17/12/2012
Jorge Manuel Martins
MEMÓRIAS
CRUZADAS
Para a Antonieta Lisboa
Regresso sempre
à Universidade de Aveiro com verdadeiro prazer. A última vez foi para o
lançamento do livro de homenagem a Eugénio Lisboa, grande obra
coletiva entusiasticamente organizada por Otília Pires Martins e Onésimo
Teotónio de Almeida, belamente editada pela Opera Omnia e oportunamente
patrocinada por esta Universidade (Martins e Almeida, 2011).
Concederam-me então o privilégio de integrar o grupo dos 72 autores desse
volume e de poder contribuir com um artigo sobre diplomacia cultural, a
propósito da presidência de Eugénio Lisboa na Comissão Nacional da UNESCO.
Nesse meu pequeno testemunho, fiz questão de só citar textos do homenageado,
para fugir à tentação de falar de mim.
Hoje, porém, tratando-se do primeiro volume das suas próprias memórias –
provocantemente intituladas Acta est Fabula (Lisboa, 2012) –, seja-me
permitido quebrar tal protocolo e cruzar algumas das minhas memórias pessoais
com as deste autor. Por uma simples razão: somos amigos há quase quatro décadas
e só esse facto explica o convite, tão inesperado quanto honroso, para estar
aqui.
Antes de avançar, devo fazer um
aviso e uma declaração de interesses. Não sou crítico literário e, como
sociólogo da comunicação e da cultura, desconfio da investigação assética.
Mais: tenho alguma dificuldade em ser isento e, no caso presente, não pretendo
de todo ser isento – porque admiro muito o Eugénio Lisboa. Tanto, que faço minhas
as célebres palavras de Romain Rolland, então endereçadas a Henry de
Montherlant: «o mundo é mais rico para mim desde que o conheço».
Afinal, que venho eu aqui fazer?
Nunca fui a Moçambique e sou (um pouco) mais novo do que o autor destas
memórias. Além da amizade, só posso explicar ainda a minha presença, neste
lançamento, com o facto de vir dedicando, à sua obra, ao longo dos anos, toda a
atenção de que sou capaz. Julgo ter sido D’Annunzio a recordar-nos que a melhor
homenagem, que podemos prestar a um autor, é justamente a atenção.
Armado destas credenciais e
sabendo-me numa universidade, venho aqui propor um modelo de análise para a
identificação de chaves de leitura deste singular livro.
Dir-me-ão – e bem – que a escrita de Eugénio Lisboa não carece de chaves
de leitura. Ele sempre praticou a clareza própria dos pensamentos
profundos, a limpidez típica de quem pensa bem. Suspeito, porém, que a leitura
do presente livro, à luz de uma obra produzida em mais de meio século, pode ser
altamente reveladora.
Em que baseio tal suspeita?
Possuindo quase todos os seus livros publicados – sempre em generosa oferta e
calorosamente dedicados –, consegui agora regressar rapidamente às páginas que
mais me impressionaram. E encontrei muita matéria de interesse para ser cruzada
com o atual primeiro volume de memórias – enquanto não chegam os
próximos...
Não, não estou a propor um modelo de
tipo psicanalítico. Estou tão-só a tentar aliciar investigadores para uma
revisitação da obra do autor e, a partir de tal retrospetiva, para uma leitura
das suas memórias. Como veem, é bem ambicioso o modelo de análise aqui
avançado: dá tese – e de doutoramento! Não será esta a oportunidade para
ensaiar o modelo. Aliás, faltar-me-iam o engenho, a arte e o tempo para
concretizar tão grandioso objetivo. Por hoje e a título de exemplo, vou
cingir-me à enunciação de cinco meras hipóteses de trabalho, eventualmente
operativas.
RÉGIO
A primeira
hipótese pode ser a de estudar a vasta produção regiana deste autor. Foi por aí
que eu próprio comecei, pela leitura deslumbrada de um original sobre José
Régio, que andava esquecido na editora Arcádia, até que eu o recuperei e
publiquei em 1976. Dez anos depois, a história foi contada no prefácio da
segunda edição (Lisboa, 1986) e a dedicatória pessoal acrescentava o seguinte: «Para
o Jorge Martins, a quem este livro também pertence, por razões que o prefácio
explicitamente dá». Face a tão rara generosidade, a minha surpresa ditou
uma imediata e sensibilizada resposta, que veio a ressurgir, na introdução ao
meu Marketing do Livro (Martins, 1999).
Curiosamente, nas presentes
memórias, Eugénio Lisboa relata o seu «primeiro encontro com José Régio» em
Moçambique, aos 16 anos, através da leitura do volume de abertura da saga
familiar A Velha Casa – um Régio que ele próprio «viria
a conhecer, pessoalmente, oito anos mais tarde e a cuja obra consagraria não
pouco do [seu] tempo de estudioso da literatura e de escritor» (Lisboa,
2012: 155-158).
MONTHERLANT
A segunda hipótese, para o entendimento do homem
e da obra destas memórias, pode ser o conjunto dos textos que, ao longo da
vida, Eugénio Lisboa vem dedicando a Henry de Montherlant. Recentemente, afirmou
que o escritor francês o fascina desde os 20 anos e que, por isso,
a ele regressa constantemente «como quem recarrega baterias» (Lisboa,
2009: 171).
Recordo uma conferência de 1967
intitulada 'Henry de Montherlant e a Moral do Artista'. Só a li em 1976, quando
me remeteu de Paris os dois volumes da primeira edição da Crónica dos
Anos da Peste, mais tarde reeditada num só tomo pela INCM (Lisboa, 1996) e
então saudada, num semanário, como «um dos livros mais desassombrados
na história da nossa crítica». Foi nessa conferência que descobri esta bela
confissão do nosso autor: «Montherlant, o mais pessoal, o mais
independente, o mais descaradamente verdadeiro e direto de todos os escritores
franceses do século XX (…), era bem o exemplo que me convinha», como «professor
de independência» neste nosso «mundo de escravos e de robots» (ibid.:
218). E quanto às virtudes recomendadas por Montherlant na Carta de um
Pai a seu Filho, realçava estas: «coragem, civismo, altivez,
retidão, desprezo, desinteresse, cortesia, gratidão e ‘de uma maneira geral,
tudo o que se entende pela palavra generosidade’» (ibid.: 220).
É ainda nessa conferência que
Eugénio Lisboa resume, no binómio honestidade-coragem, a moralidade do escritor
em Montherlant. E explica: «A honestidade é essencial para se não
embrulhar os resultados da lucidez. Mas a honestidade pode calar-se. Para que
se exprima é necessária a coragem» (ibid.: 240). Todos nós, que
ouvimos e lemos o nosso autor há muitos anos, percebemos assim os motivos por
que ele não se cala, mesmo quando se trata de um prémio Nobel ou de um
primeiro-ministro…
A moral do artista está primeiro.
Montherlant recordou-lhe que a «lealdade consigo próprio é a maior
marca de respeito que um escritor pode dar ao público» (ibid.:
241). Também por isso, nas presentes memórias, afirma-se que foi tomado o
partido de se dizer «só a verdade, embora não toda a verdade», até
para garantir que elas valham, como «testemunho de uma época e de um
lugar» (Lisboa, 2012: 71-72, 87, 135-136). Eu diria que essa é
exatamente uma das razões que fazem deste volume muito mais do que simples testemunho de
época e de lugar.
MUNDIVIDÊNCIA
A terceira hipótese, para cruzar
esta recente retrospetiva memorialística com as linhas estruturais do homem e
da obra, pode receber aqui o nome de mundividência. Há quatro anos, no dia do
aniversário do Eugénio Lisboa, a minha mulher e eu oferecemos-lhe um grande
livro, cheio de impressionantes fotos aéreas do planeta Terra. Quisemos assim
dizer-lhe que tínhamos aprendido, com ele, a ver o mundo… de avião.
De facto, a partir de meados dos
anos 70, para nós, acabados de sair do orgulhoso e provinciano isolamento
português, ele passou a representar alguém que trazia notícias… lá de cima.
Vinha dos fundos do hemisfério Sul (Moçambique), a caminho dos cumes do
hemisfério Norte (Suécia); trazia, na mesma bagagem, a engenharia e a
literatura, a indústria e a poesia, as ciências e as letras; e foi-se deixando
ficar entre Londres e Lisboa.
Não era de palavras cruzadas que vinha
falar: era de culturas cruzadas ou, melhor, da necessidade de esvaziar a
célebre polémica das duas culturas, aberta no final dos anos 50 por
C. P. Snow. Para ele, sempre foi natural o cruzamento dos dois campos. Tal como
Einstein era tão notável na física como virtuoso no violino, também o jovem
Eugénio triunfou tanto nas ciências como nas letras. Ele conta aqui, neste
primeiro volume de memórias, como a Matemática e a Literatura o encantavam por
igual (Lisboa, 2012: 85, 145), o que lhe valeu quadro de honra quase constante
(ibid.: 168), a média final de 18 valores e várias bolsas de estudo (ibid.:
184).
Eu diria que este autor português
teve a sorte de nascer e crescer em Moçambique. Porque – reparem nas suas
expressões – «dali, via-se a Europa» (ibid.: 71), «por
cortesia» de escritores como Balzac, Stendhal ou Thomas Mann (ibid.:
143-144). Em 17 anos de Lourenço Marques, Martin du Gard mostrou-lhe Paris,
Pirandello a Itália, Tolstoi a Rússia, Hemingway a América e, tal como tinha
acontecido a Montherlant, o celebrado autor do Quo Vadis desvendou-lhe
a Roma antiga.
CLÁSSICOS
Ao citar Roma, estamos a avançar para a quarta
hipótese, a do fascínio pela cultura clássica. Fascínio bem curioso num
engenheiro eletrotécnico, mas perfeitamente natural em quem, logo na sua
juventude laurentina, já lia Plutarco, Tácito e Platão, Ésquilo e Sófocles,
estes dois últimos por indicação do seu amigo Zeca, nada menos que o futuro
grande matemático Tiago Oliveira (ibid.: 115, 121, 123).
Fascínio também muito natural em
quem se confessa seguidor de Montherlant e lhe chama «o último romano» e «o
grande romano do nosso tempo». Para ambos os escritores, a história romana,
como «microcosmo de toda a História», é verdadeiramente «o
corrimão» onde podem agarrar-se, em momentos sombrios (Lisboa, 1996:
108-109). Deste fascínio pela cultura clássica decorrem, naturalmente, o título
deste primeiro volume de memórias, os subtítulos de vários capítulos e tantas,
tantas passagens da vasta obra de Eugénio Lisboa. E decorre também, certamente,
a «sobriedade de estilo» aprendida com a «aticidade
dos clássicos» (Lisboa, 2012: 80-81).
LIVROS
À quinta hipótese do meu modelo de análise
poderemos chamar a magia dos livros. Teve o Eugénio Lisboa a sorte de lhe
calharem grandes professores, por exemplo um que «falava dos livros com
uma espécie de volúpia, mesmo de luxúria», sendo «um prazer e uma instrução
ouvi-lo e viver com ele a magia dos livros» (ibid.: 46,49).
Teve a sorte de, na adolescência, lhe ter entrado pelo quarto adentro uma
estante com uma centena de bons livros (ibid.: 122-123) e, assim, o seu
mundo de leituras ter-se alargado.
Ali, na sua Lourenço Marques, foram «horas
inesquecíveis de descoberta», a ler «vorazmente – mas, sempre,
devagar – e com intensidade» os livros em que se revia (ibid.:
191). Lendo-os, ele diz que, «estranha e poderosamente», sentia
estar a acrescentar-se a si próprio (ibid.: 172), a ponto de se
apaixonar perdidamente pela Senhora de Rênal (ibid.: 124). Aliás, o
princípio do primeiro capítulo destas memórias são uma clara homenagem às
primeiras linhas do Le Rouge et le Noir de Stendhal. Tal como,
ao longo do presente volume, são constantes as evocações literárias dos seus
grandes autores preferidos.
Foi por causa dos livros que nos
tornámos amigos, o Eugénio Lisboa e eu, há quase quatro décadas, amizade que se
alargou logo às nossas famílias e que perdura, com outras fiéis presenças, numa
saudável e sempre divertida tertúlia prandial. Uma vez, perante uma banca de
venda de livros, atravancada de lixo com capas estridentes, desabafava ele: «Até
parece que os editores, depois de separarem o trigo do joio, só publicam o
joio».
Mais tarde, partiu o pão em
pequeninos (como gosta de dizer) e explicou-se numa entrevista (apud Martins
e Almeida, 2011: 413-420): «O que se passa é quase obsceno. E mete
medo. Entrar em quase 90% das livrarias causa náuseas: é o reino do mono-estilo,
com a promoção sistemática e despudorada do que há de pior: o pimba, o piroso,
o sensacionalão, o grande best-seller de lá de fora e de cá de
dentro. O chover no molhado: promover, a grandes custos, o que por natureza da
sua própria mediocridade já está promovido». E acrescentava Eugénio Lisboa,
com o seu proverbial desassombro: «Os grandes heróis dos editores e dos
livreiros são os senhores-da-televisão-que-também-escrevem-livros e que
despertam a concupiscência dos jovens e não tão jovens que sofrem de iliteracia
aguda e por isso gostam de comprar os livros daqueles senhores e senhoras que
aparecem muito no petit écran». Noutro local (Lisboa,
2012b), anotava ainda o crítico: «O talento umas vezes não dá dinheiro,
outras dá até bastante. (…) A falta de talento não é impeditiva de se ganhar
pequenas fortunas: os escritores televisivos que o digam».
Felizmente, ainda se registam
exceções promissoras, no campo livreiro. Uma delas, a favor do próprio autor
desta catilinária, será a Opera Omnia, chancela de Guimarães que lançou o
volume de homenagem a Eugénio Lisboa (Martins e Almeida, 2011) e acaba de lhe
editar as memórias (Lisboa, 2012). De assinalável qualidade, este objeto
editorial de 208 páginas pode ser assim descrito: capa, contracapa, impressão e
acabamento eficazes; caderno de extratextos correto; ergonomia gráfica coerente
(papel, formato, grelha, corpo e tipo de letra, entrelinhamento, brancos,
hierarquia de títulos); cabeças de página à inglesa (coisa hoje rara, pois até
a INCM se esquece delas, como pode verificar-se nos títulos que editou de
Eugénio Lisboa...). Só é pena não apresentar um índice remissivo de nomes e
lugares, que faz muita falta.
Em resumo, no presente livro, a
forma ou «encenação da escrita», como alguém lhe chamou, está bem ao serviço do
estatuto deste autor. Mas tal qualidade técnica – para a qual contribuem, em
rede social interativa, diferentes profissões do livro (cf. Martins, 2005) –
nem sempre é percebida por todos os sucessivos e diferentes clientes. Sabemos que
a sociologia considera o livro como «objeto de dupla face, económica e
simbólica, mercadoria e significação» e cada mediador como «personagem igualmente dupla,
condenada a conciliar a arte e o dinheiro, o amor da literatura e a procura do
lucro, através de estratégias que se situam algures entre dois extremos:
submissão cínica às considerações comerciais e indiferença heroica ou insensata
às necessidades da economia» (Bourdieu,
1999).
Eugénio Lisboa, com a sua
experiência de gestor cultural, também sabe. Ele próprio afirmou, aqui, na
Universidade de Aveiro: «Pessoalmente, sinto sempre uma aflita gratidão por
todos aqueles que quiseram correr, com as minhas congeminações, riscos que não estou
certo de merecer. Por isso digo, e com sinceridade o digo: não matem o editor,
ele está a fazer o melhor que sabe» (Lisboa, 2007). Já o dissera antes, no atrás citado prefácio à reedição do
seu Régio (Lisboa, 1986): «Apesar dos exemplos de gente que nos maltrata a alma
e os textos, tenho sido absurdamente feliz. O meu editor mais frequente – o
Estado – tem atuado de modo praticamente impecável».
***
Algumas outras hipóteses poderiam ser
trabalhadas, no modelo de análise aqui brevemente ensaiado para este livro de
memórias. Por exemplo: a da muita curiosidade que, logo em pequeno, o fazia «beber as conversas com
sofreguidão» (Lisboa,
2012: 22); a da dureza da vida, temperada pelo gosto do que «faz viver» (ibid.: 62-63); a da
ironia, do humor e da sátira, por certo afinadas mais tarde com o seu mestre
Montherlant; a do fascínio pelo cinema que «perdurou até hoje» (idem: 26); a da fragilidade da vida versus o prazer da escrita (ibid.: 22, 35, 69, 80-81); e até a antiquíssima dimensão
poética. Desta última eu não saberia falar, pois reconheço que tenho pouco
ouvido para a poesia.
Mas aproveito a
deixa da poesia para terminar com uma história autêntica, passada no solar de
Teixeira de Pascoaes (perto de Amarante) e transmitida por Maria José Teixeira
de Vasconcelos, sobrinha do escritor. Um dia, apareceu lá um grupo de miúdos
para uma visita à casa. Entraram no terreiro e um deles, mais afoito, galgou
logo as escadas, espreitou pela porta entreaberta e gritou para baixo: «Eh,
malta, o gajo era rico». Nesse preciso momento, a Senhora Dona Maria
José surgiu à porta e observou: «Então o menino trata o poeta por
gajo?». Meio atordoado, o miúdo ainda fez este comentário: «Ah, o
gajo também era poeta?».
Universidade de Aveiro, 17 de
Dezembro de 2012
Jorge Manuel Martins [1]
martins.jorge.manuel @ gmail.com
Publicado na RUA-L (Revista da Universidade de Aveiro – Letras), nº 1, 2.ª série, 2012, 401-408.
Publicado na RUA-L (Revista da Universidade de Aveiro – Letras), nº 1, 2.ª série, 2012, 401-408.
BIBLIOGRAFIA CITADA
BOURDIEU,
Pierre (1999) «Une Révolution Conservatrice dans l’Édition», Actes de
la Recherche en Sciences Sociales, Março, Paris, Seuil.
LISBOA, Eugénio
(1986 [1976]) José Régio, a Obra e o Homem, Lisboa, Publicações Dom
Quixote.
LISBOA, Eugénio
(1996 [1973, 1975]) Crónica dos Anos da Peste, Lisboa, INCM.
LISBOA, Eugénio (2007) «Não Matem o Editor: Ele Está a Fazer o Melhor que
Sabe», Ofícios do Livro, Universidade de Aveiro.
LISBOA, Eugénio (2009) Indícios de Oiro II, Lisboa, INCM.
LISBOA, Eugénio (2012) Acta est Fabula. Memórias I - Lourenço Marques (1930-1947),
Guimarães, Opera Omnia.
LISBOA, Eugénio (2012b) «Os Juros do Talento», JL Jornal de Letras,
Artes e Ideias, 21 de Março.
MARTINS, Jorge
Manuel (1999) Marketing do Livro. Materiais para uma Sociologia do
Editor Português, Oeiras, Celta.
MARTINS, Jorge Manuel (2005) Profissões do Livro. Editores e Gráficos,
Críticos e Livreiros, Lisboa, Verbo.
MARTINS, Otília Pires / ALMEIDA, Onésimo Teotónio de (org.) (2011) Eugénio
Lisboa: Vário, Intrépido e Fecundo: Uma Homenagem, Guimarães, Opera Omnia.
[1] Jorge Manuel
Martins. Natural de Lisboa, doutorado em Sociologia da Comunicação e da Cultura
pelo ISCTE, membro da Academia Portuguesa da História. Professor universitário
e consultor de empresas, foi membro da Comissão Nacional da UNESCO e presidente
do Instituto Português do Livro e das Bibliotecas. É autor de Marketing
do Livro (1999), Patrimónios Mundiais com Selo Português (2003), Profissões do Livro (2005) e de vários volumes da série anual Portugal em Selos.
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